Tuesday, August 25, 2015

Vargas, o grande democrata!



Gibson da Costa


Hoje, 25 de agosto de 2015, a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal nos ensina a história que desconhecíamos sobre o vulto mais piedosamente democrático que já pisou o solo brasileiro – ao que parece, inventor da “cidadania” –, Getúlio Vargas.

Esqueçam as intrigas mentirosas levantadas a seu respeito pela imprensa golpista de sua época e que perduram até hoje, retratando a nobre alma do finado “estadista” como ditatorial. Esqueçam o Estado Novo. Para os senadores, sindicalistas e “intelectuais” no Senado Federal, Vargas foi um herói. Lembrem-se do trabalhismo que inaugurou. Lembrem-se da Petrobrás. Getúlio foi, de fato, o “padrinho” dos “trabalhadores” brasileiros.

Essa é, ao menos, a narrativa das homenagens prestadas na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal hoje, e em todo o Congresso Nacional ao longo desta semana, à memória do autoimolado trabalhista.

Quanta incoerência para uma época na qual virou refrão popular adjetivações que fazem referências a autoritarismo, golpismo e ditadura! Quanta incoerência homenagear o líder dum regime violento e ditatorial, como se houvera sido um arcanjo democrático, num órgão chamado de “Comissão de Direitos Humanos”!

Onde estão os tais “valores democráticos” defendidos pelos grupos políticos que se apresentam como defensores dos mais fracos e oprimidos? Em nome duma ideologia qualquer, as “vítimas” do passado dão lugar ao seu “opressor” mais uma vez – cuja memória é adulada como a dum sacrossanto herói nacional.

O interessante é que os bajuladores do ditador são os mesmos que exigem mudanças de nomes de ruas que “homenageiam” os últimos ditadores da República!

Quanta incoerência!

O utilitarismo filosófico de quinta categoria dos políticos e “intelectuais” tupiniquins me enoja!


Sunday, August 16, 2015

Das manifestações de hoje


Gibson da Costa


Há dois espaços hegemônicos para a manifestação de insatisfação política no Brasil pós-06/2013: as “redes sociais” e as ruas – as urnas não, já que parecem ter se tornado apenas um depósito de obrigações, levando em consideração que a maioria dos candidatos é conhecida por não cumprir promessas e grande parte dos eleitores como compradores das mesmas. [Taí, queria ver uma grande manifestação de protesto contra os políticos profissionais com uma greve de eleitores no dia das eleições! Isso, sim, seria uma manifestação que gostaria de ver!]

O que há de comum entre as “redes sociais” e as ruas é que, frequentemente, são o palco da intolerância ao inconformismo alheio. Se quiser confirmar o que digo, você só precisa externar uma ideia oposta a quem lhe lê ou ouve e prontamente será (des)qualificado com adjetivos que carregam, em seu bojo, o ódio de seu adversário ao inconformismo de ideias. Conheço isso de perto e, talvez, melhor do que qualquer um, porque já fui alvo de ataques verbais dos dois[?] grandes lados das manifestações do Brasil neste período pós-06/2013 até hoje. [É bom até já ir me preparando para ler certas mensagens que receberei como resposta a este texto!]

O que me fascina na prática de todos os manifestantes é seu apelo àquele deplorável costume antiquíssimo, já dominante desde, pelo menos, o cenário político dos antigos romanos: não basta atacar as ideias de seus adversários, você tem de atacá-los pessoalmente, tem de desqualificá-los enquanto indivíduos. O debate de ideias perde para o devaneio emotivo, já que se entregar à semi-irracionalidade das emoções – e “semi-” porque as emoções nem sempre são irracionais – é mais fácil que se engajar num diálogo. Assim, é mais fácil adjetivar pejorativamente adversários do que apontar o que pensamos estar errado em suas ideias ou ações.

Todos os grupos ativistas, infelizmente, fazem isso. Os anti-Rousseff fazem isso com os pró-Rousseff. Os pró-Rousseff fazem isso com os anti-Rousseff. O movimento gay faz isso com a bancada religiosa no Congresso. A bancada religiosa no Congresso faz isso com o movimento gay. Os evangélicos fazem isso com os católicos. Os católicos fazem isso com os evangélicos… E o deplorável monólogo desqualificante continua ad infinitum!

Esse é um erro coletivo do qual todos somos, até certo ponto, cúmplices. Mesmo que inconscientemente, se aceitamos essa prática ou dela participamos, contribuímos com o caos do desentendimento.

Como já escrevi e disse várias vezes, discordo do alvoroço pró-impeachment até que haja (se houver) provas contra a Presidente da República. Sou contrário a inúmeras das ideias defendidas pelos manifestantes brasileiros hoje. Desconfio das intenções de alguns dos que se autoproclamam líderes dos movimentos de hoje no Brasil – alguns deles, que conheço pessoalmente, provavelmente têm intenções eleitorais para o ano que vem e se aproveitam da situação para se autopromover, ludibriando alguns de seus seguidores. Isso, entretanto, não desqualifica o fato de que muitos brasileiros manifestaram sua insatisfação com o estado das coisas.

O fato de manifestantes terem um background socioeconômico mais elevado não os desqualifica como cidadãos ou eleitores. O fato de cidadãos da dita “classe média” baterem panelas ou carregarem faixas, como protesto, não pode ser racionalmente visto como sinônimo de “golpismo” ou “fascismo”, como querem os partidários do Governo. Mesmo a infelicidade de estarem defendendo ideias com as quais não concordo não os desqualifica como cidadãos. Não tenho absolutamente nada contra esses cidadãos – muito pelo contrário!

Como escrevi acima, e em outras ocasiões, não confio em seus líderes, nem em algumas das ideias que defendem. Penso que o fanatismo de muitos deles não difere em nada daquele dos governistas que atacam opositores, como eu, com adjetivos como “reacionário” e “fascista” – que, infelizmente, enchem minha caixa de e-mail todos os dias. Mas, fico feliz em ver pessoas se manifestarem – especialmente se não houver a desordem e o desrespeito ao patrimônio público que marcaram as manifestações do verão de 2013.

Não sairia eu em manifestações como essas por uma série de razões ideológicas. A mais importante delas concerne ao fato de eu ser contrário ao movimento pró-impeachment que, no Brasil, tem sido usado – desde o período Collor – como uma arma de capricho político das oposições que renunciam a única arma que deveria ser utilizada na política democrática: o debate de ideias. Essa é a principal razão pela qual não tomaria parte em tais movimentos – prefiro não ter minha imagem associada a movimentos que defendem ideias das quais não partilho, mesmo que, em se tratando do manifestante comum, aplauda sua participação cidadã.

Como um liberal democrata, eleitor da oposição atual, crítico do Governo Rousseff, que acredita na obrigação de o mesmo (e de qualquer outro) ser fiscalmente responsável e estar limitado pela lei em seu modus operandus, já fui acusado por ativistas pró-Rousseffde ser um “reacionário fascista”!

Contudo, por ser um liberal democrata, comprometido com o Estado de Direito e com a democracia liberal; por acreditar no processo justo e na inocência até que se prove a culpa; e, consequentemente, me opor a um clamor por impeachment da Presidente antecipado ao justo processo; sou qualificado pelos ativistas anti-Rousseff como “comunista” (você teria de entender o peso semântico do termo para esses ativistas!), “aliado dos corruptos”, ou – como um dos líderes do movimento em Recife escreveu-me recentemente, após me manifestar contrariamente ao movimento “impeachmentista” – como alguém comprometido com o projeto de permanência da “esquerda” no poder!

E aí a política se resume ao lançamento de desqualificativos ao “outro lado”. E, no fim. Todos perdem!

Para finalizar, é importante que eu deixe algo muito claro. Não acredito no “Brasil”. Não amo o “Brasil”. Não espero nada do “Brasil”. E isso porque o “Brasil” – como essa entidade etérea presente em refrões e faixas – não existe! O “Brasil” são os brasileiros; e neles, sim, acredito; eles, sim, amo; deles, sim, espero muito.

E seria muito legal e recompensador descobrir, um dia, que os brasileiros aprenderam a dialogar, e não simplesmente a atirar adjetivos desqualificadores uns contra os outros!


Wednesday, August 12, 2015

Parlamentares federais e estaduais eleitos no Brasil, em 2014, agrupados por partido político

Inclui Deputados Federais, Estaduais, Distritais e Senadores.


Fonte: Observatório de Elites Políticas e Sociais Brasileiras - UFPR








TABELA



Democratas 70
Partido Comunista do Brasil 35
Partido da Mobilizacao Nacional 10
Partido da Republica 81
Partido da Social Democracia Brasileira 155
Partido Democratico Trabalhista 83
Partido do Movimento Democratico Brasileiro 213
Partido dos Trabalhadores 180
Partido Ecologico Nacional 17
Partido Humanista Da Solidariedade 16
Partido Patria Livre 4
Partido Popular Socialista 32
Partido Progressista 88
Partido Renovador Trabalhista Brasileiro 12
Partido Republicano Brasileiro 53
Partido Republicano da Ordem Social 39
Partido Republicano Progressista 15
Partido Social Cristao 46
Partido Social Democrata Cristao 11
Partido Social Democratico 114
Partido Social Liberal 18
Partido Socialismo e Liberdade 17
Partido Socialista Brasileiro 99
Partido Trabalhista Brasileiro 67
Partido Trabalhista Cristao 13
Partido Trabalhista do Brasil 15
Partido Trabalhista Nacional 23
Partido Verde 35
Solidariedade 38

Tuesday, August 4, 2015

A condenação sem provas é o oposto ao normal num Estado Democrático de Direito...


Mesmo distante, ouço as mesmas provocações das mesmas pessoas de sempre. Então, mais uma vez, eis uma clara afirmação sobre porque não apoiaria o movimento pró-impeachment.

Não sou contrário a esse antecipado movimento pró-impeachmentporque seja um eleitor do PT. Na verdade, sou o contrário disso. Como eleitor, no Brasil, nunca votei no PT por considerar sua ideologia e seu modus operandiinconsistentescom minha visão de mundo. O estilo autoritário do “lulo-petismo” só reforçou minha desconfiança e antipatia pela forma como tal partido tem operado no poder.

Mas há uma enorme diferença entre me opor a um governo, enquanto cidadão, e entender como aceitável o impedimento da Presidente, com base unicamente em acusações infundadas (porque, até que se prove o contrário, não há [nem acusação formal nem]provas para sua condenação).

Pessoalmente, posso ter minhas próprias “desconfianças” sobre sua (in)culpabilidade. Após o disparate das últimas campanhas eleitorais, com sua mentira pública aos eleitores, para conseguir ser reeleita, é difícil acreditar em sua plena inocência política. Mas essa desconfiança que tenho é a desconfiança normal dum liberal que, em certos aspectos, pende para uma antipatia semi-libertária contrao Estado e os governantes; é a desconfiança do eleitor que vê todos os políticos, em sua prática oficiosa, como inimigos do povo – todos eles, sem exceção.

Logo, desconfio – ou seja, não confio…

Entretanto, não confiar é diferente de condenar sem provas. A condenação sem provas, em si, é o oposto ao normal num Estado Democrático de Direito. Condenar um cidadão sem provas, sem um processo justo, é rasgar qualquer noção “civilizada” de Justiça, de Democracia, de Direito. E é fazer exatamente o que eles, que são Governo e são acusados de corrompê-lo, fizeram há não muito tempo atrás – também com base em acusações infundadas (porque, até que se prove o contrário, não havia[nem acusação formal nem]provas para a condenação de quem governava o Brasil à época).

Então, que investiguem as acusações – lembrando-se que quem acusa é quem deve oferecer provas – e que, se a culpa for provada, haja punição. Mas eu, enquanto alguém que defende o Estado de Direito e que – mesmo que discorde do voto da maioria e das consequências desse voto – permanece ao lado da Democracia, não posso subscrever a tamanha insanidade!

Gibson

Thursday, July 23, 2015

Ah, essa vanguarda revolucionária!


Ah, os revolucionários! Os orgulhosos e altivos senhores da verdade salvífica. A vanguarda que se eleva sobre os ignorantes iletrados políticos. Os anunciadores de boas novas trazidas à força da bala, do capital ou do prestígio socioinstitucional. Os únicos representantes de reais valores “democráticos” – isto é, da democracia eleitoral que confirma os resultados de suas próprias mensagens e escolhas. Ah, esses revolucionários!

Eles adornam-se com as mais variadas máscaras: umas mais docemente palatáveis que outras. Dividem sociedades para conquistá-las com o temor. Saqueiam a dignidade dos menos privilegiados, subestimando sua inteligência. E depois deleitam-se à mesa com banquetes exclusivos em palácios do poder. Ah, os revolucionários!

Ah, a vanguarda cega e auto-enganadora, revolucionária apenas no que concerne à conquista do poder! Exaltados por espíritos bajuladores nos palcos, nas telas e na imprensa, enquanto dirigem seus discípulos à escuridão da incoerência. Vanguarda multipartidária, mas monoliticamente estúpida! Vanguarda que ensina em escolas e universidades, que escreve para publicações e apresenta telejornais, que se candidata aos poderes republicanos, que defende candidatos e que escreve para o mundo cibernético. Ah, a vanguarda!

A vanguarda, como os antigos profetas, sempre nos levará à Terra Prometida – como o tem feito até hoje. Abramos mão, então, do que resta de nossa liberdade e a entreguemos aos cavaleiros do futuro. Só eles – e suas mais variadas cartilhas políticas, em todas as coordenadas geográficas (direita, centro, esquerda, e todos os extremos) – sabem onde devemos chegar e o que devemos fazer para alcançar esse destino.

Entreguemos nossa liberdade aos estudantes incendiários ou aos militaristas impiedosos. Entreguemos nossa liberdade aos duques dos Palácios ou aos barões das Câmaras. Entreguemos nossa liberdade aos sapientes das universidades ou aos pensadores midiáticos. Entreguemos nossa liberdade aos sindicatos ou aos movimentos sociais. Eles nos guiarão à Terra da Promissão!

Ah, essa vanguarda revolucionária!

Monday, July 20, 2015

A violência escolar e a nostalgia anacrônica e a-histórica!!!


Alguém ousou escrever-me, fazendo apologia a uma “intervenção militar”. Em meio à sua mensagem havia esta imagem, exibindo sua “comparação” anacrônica da realidade nas escolas brasileiras… A submissão ordeira versus a afronta desordeira…



O que haveria de errado na imagem, afinal de contas?

O “artista” das redes que colou imagens não identificadas para construir seu bem-intencionado protesto foi acometido duma nostalgia anacrônica e a-histórica, como muitos de nós frequentemente somos durante períodos de incerteza; e, assim, tolamente, ele sugere que a vida de professores e alunos fosse mais feliz, mais fácil, mais produtiva, mais patriótica.

O protesto do mentecapto artista torna-se, assim, uma projeção bovarista duma realidade construída pela ansiedade e temor diante da realidade com a qual se depara – ou aquela selecionada para exibição nos telejornais.

Supondo que as partes plácidas da montagem imagética representem salas de aula brasileiras, a que considerações poderíamos chegar?…

O que nosso “artista” de “photoshop” provavelmente não sabe é que até meados da década de 1960 a maioria das escolas brasileiras encontravam-se em áreas urbanas de grandes centros. Os estudantes dessas escolas provinham daquilo que costumam chamar de classes média e média-alta. A partir dessa época – que corresponde ao “período dos generais” –, começa a “massificação” (alguns chamam de “democratização”) da escola pública, ao mesmo tempo em que há aquele processo de urbanização desordenada do país. As escolas começam a receber estudantes advindos de estratos mais pobres da sociedade, e isso, em parte, causa o desprestígio da profissão docente – minha profissão – em meio às classes médias.

Assim, esse mito da escola “paraíso” reside no fato de que antes ela era uma escola para poucos. Desde aquela época, chegando até nossos dias, o acesso à escola tem se ampliado. E os problemas associados a isso, obviamente, se tornam mais óbvios. Na verdade, é bom enfatizar que problemas comportamentais de alunos sempre existiram. Mas, talvez, nosso “artista” nunca tenha lido “O Ateneu”, de Raul Pompeia. Se na década de 1970 não se viam fotos como aquelas nas escolas era porque, dentre tantas outras coisas – inclusive o fato de o país viver uma ditadura –, não se ter acesso a equipamentos de transmissão de imagens instantâneas como temos em nossos dias (caso contrário, quem sabe o que câmeras de celulares teriam captado?).

Ademais, não foi o PT quem criou esse comportamento nos estudantes. Mesmo que o comportamento fosse “criado” por quem administra a educação, os petistas não têm todos os Governos estaduais, todas as Secretarias de Educação estaduais e municipais, e nem todos os “gestores” de escolas são petistas. Logo, acusar o PT por isso é, no mínimo, ridículo (novamente, supondo que se pudesse culpar o governo pelo comportamento dos estudantes).

Agora, quanto à ladainha do pró-intervenção militar, nem vale a pena me dar ao trabalho de responder. Talvez devesse apenas lembrá-lo dum pequeno fato histórico:

A única vez na qual militares brasileiros intervieram na vida política do país para realmente respeitar a democracia e fazer valer as leis foi em 11 de novembro de 1955, quando evitaram um golpe de Estado que queria impedir a posse de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros.* Todas as outras intervenções foram golpes que não respeitaram nem a democracia, nem a lei, nem o “povo”!

Então, faça um favor à sua imagem, e deixe de propagar besteiras por aí!

Gibson

* Você pode ler mais sobre isso em: CARLONI, Karla. Forças armadas e democracia no Brasil: o 11 de Novembro de 1955. Rio de Janeiro: Garamond, 2012.

Sunday, July 19, 2015

Sobre alguns dos “novos liberais” brasileiros das redes sociais


Hoje serei o “advogado do diabo”. Como já zombei demais do establishment do dia, é hora de falar sobre o “outro lado”…

Não, ainda não os classifico exatamente como “fascistas”, até porque tenho instrução teórica suficiente para reconhecer certas características clássicas dos movimentos “fascistas” (alguns deles podem ser chamados, talvez, de semifascistas) – se bem que posso entender porque alguns os chamam assim… Mas chamá-los de “liberais” é uma grande piada de mau gosto!

Eles parecem ter se tornado a nova febre das redes sociais. Obviamente, o contexto político do país explica esse “novo modismo”[?]. Seus mantras são repetidos cansativamente, de forma semelhante àquela dos “evangelizadores” de coletivos em qualquer grande cidade brasileira: o PT, Dilma e os gays – não necessariamente nessa ordem – são o motivo para a “desgraça” da “República”.

Alguns defendem apressadamente o impeachment da Presidente da República – esquecendo-se que um Estado [Democrático] de Direito possui regras tanto para a condenação de supostos culpados quanto para revogar a decisão das urnas. Alguns deles chegam mesmo a defender uma intervenção militar.

Em sua ânsia em proclamar sua verdade recém-descoberta, propõem o silenciamento dos que pensam de forma distinta – agindo da mesma forma como, ou pior, os supostos vilões sobre os quais alardem sua verborragia apocalíptica.

O que mais me “surpreende” na tagarelice de alguns desses personagens é que, ao menos alguns deles, até pouquíssimo tempo atrás eram eleitores do mesmo partido que governa o país hoje. Mas, mesmo assim, classificam os eleitores do establishmentdo dia como moralmente desvirtuados.

Até ontem, alguns deles eram ateus. Mas, hoje, são religiosos ardorosos incumbidos de salvar a alma da “nação”.

Até ontem, alguns deles eram consumidores de “entretenimento” pornográfico. Mas, hoje, são os agentes moralizantes da “família” brasileira, com a missão de salvá-las especialmente dos gays e da degradação moral!

Realmente, confesso que não sei se rio ou se choro!

Como um liberal democrata de berço – filosófica, política, econômica, social, e teologicamente –, a liberdade, a diversidade, o domínio da Lei, a democracia, a autonomia individual e a paz têm uma importância maior do que os ciúmes partidaristas e as disputas pueris.

Sim, também tenho algumas convicções que entram em conflito com os caminhos seguidos, talvez, pela maioria dos demais cidadãos, mas meu credo pessoal é que só pode haver liberdade para mim se meu adversário também for livre; só pode haver justiça para mim se ele também tiver justiça. E eu tenho um compromisso com minha própria consciência de defender o direito de meu oponente dizer o que acredita, mesmo se o que diz me ofenda – porque só assim, moralmente, posso exigir o direito de dizer o que penso. Esse é o meu credo liberal de liberdade e de igualdade sob a Lei.

Mas os supostos “liberais” das redes sociais aparentemente não acreditam em nada disso. Eles acreditam, sim, neles mesmos como “o farol” da verdade, da segurança e da moralidade… Eles, enfim, cospem na tradição que dizem defender.

Sua suposta “moralidade política” resume-se às suas tentativas de construir uma imagem viável para eleitores socialmente conservadores. Não exibem conteúdo intelectual politicamente relevante. Daí sua belicosidade verborrágica. Mas sua encenação legalista desaba quando começam a falar, ou melhor, a escrever!… Provam que não estão preparados para liderar uma sociedade livre e democrática no século XXI. Sua hipocrisia moral, sua visão retrógrada de família, da mulher, da sexualidade humana, e de tantas outras coisas, torna-os perfeitos para dirigirem sociedades agrárias do século XIX.

Politicamente, não são liberais. São, no máximo, aventureiros que tentam compensar seu intelecto microscópico com gritos humanoides.

Gibson

Tuesday, July 7, 2015

O desvalor da vida e os crimes “hediondos”


Hoje, a Presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que transforma em crime hediondo e qualificado o assassinato de policiais civis, militares e federais, incluindo os rodoviários. Para quem se rende ao oba-oba dos grupos de pressão, a lei representa uma valorização dos representantes do Estado – já que, para eles, matá-los é um atentado ao Estado brasileiro. Para mim, contudo, a lei representa duas coisas: [1] um reflexo do quão insignificante e sem valor é a vida humana na “mentalidade” brasileira; e, [2] uma admissão, por parte do Estado, de sua derrota em proteger a vida humana.

Você só precisa ver alguma notícia sobre o assassinato de alguém, no Brasil, para entender meu primeiro ponto: “Ele(a) era um trabalhador(a)”. “Não tinha envolvimento com drogas”. “Era um bom rapaz/moça”. “Era pai/mãe de família”. Opiniões como essas sempre servem de justificativa à injustiça do assassinato de pessoas “inocentes”. São afirmações que parecem não incomodar a absolutamente ninguém. Retratam o imaginário coletivo dos brasileiros acerca do (des)valor da vida humana.

Ora, a vida humana possui valor independentemente de quem seja o personagem do enredo. Para mim, não importa se a pessoa é trabalhadora ou desocupada, abstêmia ou usuária de narcóticos, supostamente boa ou má, com ou sem prole; o que realmente importa, e sempre deveria importar, é que a vida é merecedora de proteção – se não porque queiramos, enquanto sociedade, proteger a vida de assassinos, por exemplo, simplesmente porque é a melhor lição que a sociedade dita civilizada pode ofertar: mostrar ao criminoso que as leis que o condenam são superiores ao caminho de crime que seguiu, e por isso mesmo, ele receberá a proteção que sua vítima não teve.

É justamente por a vida possuir um valor inalienável que torna-se imoral, em minha visão, tratar apenas o assassinato de agentes do Estado como hediondo, enquanto o assassinato de cidadãos comuns – tão humanos quanto os agentes do Estado – enquadra-se numa classificação de menor grau. Mas, olhando para a história da cultura política do Brasil, não é de surpreender tal aberração.

Porque o Estado todo poderoso brasileiro é incapaz de garantir a segurança de seus cidadãos e de seus agentes menores – sim, porque os agentes policiais não podem ser colocados no mesmo nível dos barões do Congresso ou dos Duques do Planalto –, precisa de leis que mascarem sua incompetência para salvaguardar a vida (isso para não citar a propriedade). Assim, encena-se uma proteção àqueles que supostamente deveriam proteger a vida do homem e da mulher comuns, violando qualquer princípio que afirme dever ser a vida de todos igualmente protegida.

O desvalor à vida se explicita, por exemplo, quando se compara a punição imediata a manifestações racistas, a saber a prisão sem direito à fiança, com o direito à fiança em casos que envolvem homicídio.

… Como ofender alguém pode ser mais grave que subtrair a vida de um ser humano? Você não pensa que há uma desproporcionalidade punitiva quando comparamos as consequências?... Bem, os legisladores brasileiros não!

Os barões do Congresso – muitos deles que publicamente se declaram “defensores da vida” – apenas se contradizem ao legalizarem a violência, tão enraizada na cultura nacional… E como “legalizam a violência”? Ao legalmente tornarem a vida dos agentes policiais mais cara que a vida dos cidadãos e cidadãs comuns! Sua lei, simbolicamente, violenta a memória dos homens, mulheres, crianças, e adolescentes que tiveram sua vida subtraída e cujos assassinos ainda não foram reeducados para integrarem à sua persona a ideia de que a vida humana é inerentemente valiosa e que quando matamos uma única pessoa, é como se tivéssemos matado toda a humanidade!

+Gibson

Friday, July 3, 2015

Um antídoto contra a idiotização virtual coletiva?


Uma das heranças mais marcantes de minha formação liberalfoi a de atentar ao contraditório – ouvir os argumentos divergentes e analisar no que eles podem enriquecer minhas próprias perspectivas e, se necessário, mudar minha posição. Isso, na tradição que me moldou, não é sinal de fraqueza; é, antes, um passo para a maturidade intelectual. E qualquer pessoa, especialmente alunos, que tenha convivido com minha personade “advogado do diabo” percebe o quanto isso está integrado à minha personalidade (quando, por exemplo, defendo uma posição frequentemente contrária à minha própria só para incitar um debate acerca dum dado problema).

Um grande professor e amigo que tive em minha primeira alma mater, e cujas ideias ainda me influenciam, costumava dizer que “desumanizaríamos as humanidades” (um de seustrocadilhos clássicos) se não desenvolvêssemos a capacidade de pensar criticamente acerca das ideias que abraçávamos e às quais éramos expostos. Lidar com as humanidades – ou “ciências humanas”, se preferirem –, para meu professor, implicava em lidar com a diversidade de ideias “racionalmente”, continuamente questionando nossas próprias posições.

Quando testemunho as “discussões” (?) nas quais se engajam certos intelectualoides humanistas, não consigo evitar pensar sobre qual seria a resposta de meu antigo professor se os ouvisse.

A verdade, para mim, é que muitos têm se tornadopapagaios idiotas na era do Facebook: repetem muitas ideias vazias, com baixíssima qualidade argumentativa, e xingam aqueles que discordam de si – como se isso servisse de cartão de visitas intelectual! Assim, aqueles de quem discordam são facilmente identificados como “fascistas”, “fundamentalistas”, “intolerantes”, “comunistas”, “esquerdistas”, “coxinhas” (direitistas), e sei lá mais o quê (a depender de sua lealdade ideológica) – e esses nobres porta-vozes da idiotice coletiva envergonham qualquer sombra de racionalidade crítica.

E o triste, para mim, é que muitos dos que fazem parte dessa atividade para desocupados – o linchamento virtual dos que defendem uma posição contrária – são os “ilustrados” das humanidades... Pelo jeito, as onipresentes leituras pós-modernas às quais foram expostos não foram suficientes para salvá-los da ignorância e, assim, podem deleitar-se com seu eterno status de idiotas virtuais!

E o antídoto? Há?... Sim: abandonem o vazio do Facebook e voltem-se aos livros (isso, obviamente, é apenas uma metáfora, mas pode ser útil a alguns se cumprirem-na ao pé da letra!). Pesquisem sobre as ideias que lhes aborrecem. Aprendam sobre as posições daqueles que tanto adjetivam. Questionem a si próprios. Você não será nem imitação de intelectual, se não conseguir argumentar. E, para argumentar, deve haver empatia – na realidade, a empatia é indispensável para que sejamos humanos plenos –, assim como conteúdo inteligível...

E, para reforçar um conselho daquele meu antigo professor: pense duas vezes antes de repetir o que parece óbvio demais!

+Gibson

Sunday, June 7, 2015

Para proteger as famílias brasileiras, diga não ao PL-6583/2013!!!


Poucas coisas ainda conseguem me chocar quando acompanho as notícias políticas do Brasil e o fanatismo “partidarista” de grande parcela da sociedade brasileira. Um dos exemplos mais recentes refere-se ao chamado “Estatuto da Família” e a seu apoio por parte de supostos defensores do “Estado mínimo”. A insensatez, incoerência e ignorância teórica desses supostos adeptos das tradições minimalistas (conservadora, liberal ou liberal conservadora no Brasil) é um reflexo do vazio “crítico” – e utilizo “crítico” aqui num senso kantista – do discurso político brasileiro. Assim, aqueles que normalmente reclamam da interferência estatal na vida do cidadão, quando lhes convém, defendem um “Estatuto”, que define o que é uma família, que estabelece “conselhos da família” etc – ou seja, que entrega ao Estado ainda mais poderes no que concerne à vida privada... E o que realmente fazem é atolar-se num lamaçal de incoerências filosóficas!

Não tenho muito tempo para escrever hoje, mas permitam-me esclarecer brevemente porque penso o que penso sobre o tema.

O artigo 2º do PL-6583/2013 (o tal Estatuto da Família), de autoria do Deputado Federal Anderson Ferreira, de Pernambuco, define “entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.

Para o autor do projeto, “a família vem sofrendo com as rápidas mudanças ocorridas em sociedade, cabendo ao Poder Público enfrentar essa realidade, diante dos novos desafios vivenciados pelas famílias brasileiras.”

Em sua justificativa para o projeto, Anderson Ferreira só não cita o óbvio: a verdadeira razão para uma definição do que seja uma entidade familiar é simplesmente excluir as famílias formadas por casais do mesmo sexo. Em sua “cruzada” em favor duma definição “heterossexualizante” da constituição familiar (já que, em sua definição, uma família pode ser formada por apenas um dos genitores e seus filhos – uma constituição, per se, já não mais “tradicional”), o autor acaba por não reconhecer que famílias “tradicionais” podem também ser formadas apenas por irmãos e/ou irmãs (casos já reconhecidos, no Ocidente, desde, pelo menos, o Direito Romano).

A própria definição e o caminho político desse projeto refletem uma ausência de bom senso, tanto por parte dos que o defendem com suposta base em argumentos políticos, quanto por aqueles que o fazem com suposta base em argumentos teológicos (sobre os quais tratarei posteriormente).

Pensemos, por exemplo, naquilo que Adam Smith chamou de sistema de “liberdade natural”. Quando o Estado funciona da forma certa, deve facilitar as interações entre pessoas livres, respeitando e protegendo os direitos de cada indivíduo, independentemente de suas características individuais.

Nossas sociedades passaram, ao longo dos séculos, por transformações concernentes à forma como encaramos certos comportamentos sociais. As leis, como reflexos dessas transformações, também sofreram alterações. Assim, enquanto, há algum tempo, o casamento era visto como indissolúvel – e casais que já não mantinham um relacionamento propriamente conjugal eram forçados a desempenharem o papel social do “casal”, da “boa família” –, hoje há a possibilidade de casais desfazerem seus laços legais e se engajarem em outros relacionamentos. O Estado tem protegido o direito de o indivíduo desfazer suas ligações conjugais com outra parte, mesmo que isso acarrete um custo financeiro a uma das/ambas as partes.

O Estado também reconhece configurações familiares de facto (isto é, aquelas não formalmente jurídicas). De fato, a própria definição de família dada pelo Estatuto em questão o faz, quando diz: “[...] união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável[...]”. Ou seja, o projeto de lei defendido por supostos “tradicionalistas” reconhece outras formas de organização familiar – como uma família constituída por uma mãe solteira, por exemplo. Mas não o faz com um casal formado especialmente por dois homens, porque isso implicaria, para seu autor e defensores, uma “autorização” para a adoção por parte de indivíduos ou casais gays.

O cerne da questão não seria, então, os interesses da sociedade enquanto aglomerado político – que incluiriam, por exemplo, a proteção à propriedade, às liberdades individuais e ao direito de cidadãos livres se engajarem em contratos sociais –, mas, sim, os interesses duma mentalidade moral incoerente.

Que coerência pode haver em pessoas que, em sua visão teológica, são contrários à liderança eclesiástica feminina, mas, em sua vida política, apoiam para a Presidência da República uma mulher? Você consegue acreditar na seriedade/sinceridade deles? Que coerência pode haver quando um grupo é contrário à intervenção estatal na vida econômica, por exemplo, mas é favorável à intervenção estatal na definição das relações humanas para fins de proteção jurídica?...

Esses são apenas alguns dos problemas relacionados a esse tal “Estatuto da Família”. Infelizmente, não tenho tempo para escrever sobre todos os aspectos nos quais tenho pensado. Basta-me enfatizar que sou contrário a essa lei que, maquiando-se de protetora das famílias, presta-se apenas à subtração de proteção legal a famílias específicas!

VOCÊ QUER PROTEGER AS FAMÍLIAS BRASILEIRAS? ENTÃO, DIGA NÃO AO PL-6583/2013!!!

+Gibson