Sunday, July 19, 2015

Sobre alguns dos “novos liberais” brasileiros das redes sociais


Hoje serei o “advogado do diabo”. Como já zombei demais do establishment do dia, é hora de falar sobre o “outro lado”…

Não, ainda não os classifico exatamente como “fascistas”, até porque tenho instrução teórica suficiente para reconhecer certas características clássicas dos movimentos “fascistas” (alguns deles podem ser chamados, talvez, de semifascistas) – se bem que posso entender porque alguns os chamam assim… Mas chamá-los de “liberais” é uma grande piada de mau gosto!

Eles parecem ter se tornado a nova febre das redes sociais. Obviamente, o contexto político do país explica esse “novo modismo”[?]. Seus mantras são repetidos cansativamente, de forma semelhante àquela dos “evangelizadores” de coletivos em qualquer grande cidade brasileira: o PT, Dilma e os gays – não necessariamente nessa ordem – são o motivo para a “desgraça” da “República”.

Alguns defendem apressadamente o impeachment da Presidente da República – esquecendo-se que um Estado [Democrático] de Direito possui regras tanto para a condenação de supostos culpados quanto para revogar a decisão das urnas. Alguns deles chegam mesmo a defender uma intervenção militar.

Em sua ânsia em proclamar sua verdade recém-descoberta, propõem o silenciamento dos que pensam de forma distinta – agindo da mesma forma como, ou pior, os supostos vilões sobre os quais alardem sua verborragia apocalíptica.

O que mais me “surpreende” na tagarelice de alguns desses personagens é que, ao menos alguns deles, até pouquíssimo tempo atrás eram eleitores do mesmo partido que governa o país hoje. Mas, mesmo assim, classificam os eleitores do establishmentdo dia como moralmente desvirtuados.

Até ontem, alguns deles eram ateus. Mas, hoje, são religiosos ardorosos incumbidos de salvar a alma da “nação”.

Até ontem, alguns deles eram consumidores de “entretenimento” pornográfico. Mas, hoje, são os agentes moralizantes da “família” brasileira, com a missão de salvá-las especialmente dos gays e da degradação moral!

Realmente, confesso que não sei se rio ou se choro!

Como um liberal democrata de berço – filosófica, política, econômica, social, e teologicamente –, a liberdade, a diversidade, o domínio da Lei, a democracia, a autonomia individual e a paz têm uma importância maior do que os ciúmes partidaristas e as disputas pueris.

Sim, também tenho algumas convicções que entram em conflito com os caminhos seguidos, talvez, pela maioria dos demais cidadãos, mas meu credo pessoal é que só pode haver liberdade para mim se meu adversário também for livre; só pode haver justiça para mim se ele também tiver justiça. E eu tenho um compromisso com minha própria consciência de defender o direito de meu oponente dizer o que acredita, mesmo se o que diz me ofenda – porque só assim, moralmente, posso exigir o direito de dizer o que penso. Esse é o meu credo liberal de liberdade e de igualdade sob a Lei.

Mas os supostos “liberais” das redes sociais aparentemente não acreditam em nada disso. Eles acreditam, sim, neles mesmos como “o farol” da verdade, da segurança e da moralidade… Eles, enfim, cospem na tradição que dizem defender.

Sua suposta “moralidade política” resume-se às suas tentativas de construir uma imagem viável para eleitores socialmente conservadores. Não exibem conteúdo intelectual politicamente relevante. Daí sua belicosidade verborrágica. Mas sua encenação legalista desaba quando começam a falar, ou melhor, a escrever!… Provam que não estão preparados para liderar uma sociedade livre e democrática no século XXI. Sua hipocrisia moral, sua visão retrógrada de família, da mulher, da sexualidade humana, e de tantas outras coisas, torna-os perfeitos para dirigirem sociedades agrárias do século XIX.

Politicamente, não são liberais. São, no máximo, aventureiros que tentam compensar seu intelecto microscópico com gritos humanoides.

Gibson

Tuesday, July 7, 2015

O desvalor da vida e os crimes “hediondos”


Hoje, a Presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que transforma em crime hediondo e qualificado o assassinato de policiais civis, militares e federais, incluindo os rodoviários. Para quem se rende ao oba-oba dos grupos de pressão, a lei representa uma valorização dos representantes do Estado – já que, para eles, matá-los é um atentado ao Estado brasileiro. Para mim, contudo, a lei representa duas coisas: [1] um reflexo do quão insignificante e sem valor é a vida humana na “mentalidade” brasileira; e, [2] uma admissão, por parte do Estado, de sua derrota em proteger a vida humana.

Você só precisa ver alguma notícia sobre o assassinato de alguém, no Brasil, para entender meu primeiro ponto: “Ele(a) era um trabalhador(a)”. “Não tinha envolvimento com drogas”. “Era um bom rapaz/moça”. “Era pai/mãe de família”. Opiniões como essas sempre servem de justificativa à injustiça do assassinato de pessoas “inocentes”. São afirmações que parecem não incomodar a absolutamente ninguém. Retratam o imaginário coletivo dos brasileiros acerca do (des)valor da vida humana.

Ora, a vida humana possui valor independentemente de quem seja o personagem do enredo. Para mim, não importa se a pessoa é trabalhadora ou desocupada, abstêmia ou usuária de narcóticos, supostamente boa ou má, com ou sem prole; o que realmente importa, e sempre deveria importar, é que a vida é merecedora de proteção – se não porque queiramos, enquanto sociedade, proteger a vida de assassinos, por exemplo, simplesmente porque é a melhor lição que a sociedade dita civilizada pode ofertar: mostrar ao criminoso que as leis que o condenam são superiores ao caminho de crime que seguiu, e por isso mesmo, ele receberá a proteção que sua vítima não teve.

É justamente por a vida possuir um valor inalienável que torna-se imoral, em minha visão, tratar apenas o assassinato de agentes do Estado como hediondo, enquanto o assassinato de cidadãos comuns – tão humanos quanto os agentes do Estado – enquadra-se numa classificação de menor grau. Mas, olhando para a história da cultura política do Brasil, não é de surpreender tal aberração.

Porque o Estado todo poderoso brasileiro é incapaz de garantir a segurança de seus cidadãos e de seus agentes menores – sim, porque os agentes policiais não podem ser colocados no mesmo nível dos barões do Congresso ou dos Duques do Planalto –, precisa de leis que mascarem sua incompetência para salvaguardar a vida (isso para não citar a propriedade). Assim, encena-se uma proteção àqueles que supostamente deveriam proteger a vida do homem e da mulher comuns, violando qualquer princípio que afirme dever ser a vida de todos igualmente protegida.

O desvalor à vida se explicita, por exemplo, quando se compara a punição imediata a manifestações racistas, a saber a prisão sem direito à fiança, com o direito à fiança em casos que envolvem homicídio.

… Como ofender alguém pode ser mais grave que subtrair a vida de um ser humano? Você não pensa que há uma desproporcionalidade punitiva quando comparamos as consequências?... Bem, os legisladores brasileiros não!

Os barões do Congresso – muitos deles que publicamente se declaram “defensores da vida” – apenas se contradizem ao legalizarem a violência, tão enraizada na cultura nacional… E como “legalizam a violência”? Ao legalmente tornarem a vida dos agentes policiais mais cara que a vida dos cidadãos e cidadãs comuns! Sua lei, simbolicamente, violenta a memória dos homens, mulheres, crianças, e adolescentes que tiveram sua vida subtraída e cujos assassinos ainda não foram reeducados para integrarem à sua persona a ideia de que a vida humana é inerentemente valiosa e que quando matamos uma única pessoa, é como se tivéssemos matado toda a humanidade!

+Gibson

Friday, July 3, 2015

Um antídoto contra a idiotização virtual coletiva?


Uma das heranças mais marcantes de minha formação liberalfoi a de atentar ao contraditório – ouvir os argumentos divergentes e analisar no que eles podem enriquecer minhas próprias perspectivas e, se necessário, mudar minha posição. Isso, na tradição que me moldou, não é sinal de fraqueza; é, antes, um passo para a maturidade intelectual. E qualquer pessoa, especialmente alunos, que tenha convivido com minha personade “advogado do diabo” percebe o quanto isso está integrado à minha personalidade (quando, por exemplo, defendo uma posição frequentemente contrária à minha própria só para incitar um debate acerca dum dado problema).

Um grande professor e amigo que tive em minha primeira alma mater, e cujas ideias ainda me influenciam, costumava dizer que “desumanizaríamos as humanidades” (um de seustrocadilhos clássicos) se não desenvolvêssemos a capacidade de pensar criticamente acerca das ideias que abraçávamos e às quais éramos expostos. Lidar com as humanidades – ou “ciências humanas”, se preferirem –, para meu professor, implicava em lidar com a diversidade de ideias “racionalmente”, continuamente questionando nossas próprias posições.

Quando testemunho as “discussões” (?) nas quais se engajam certos intelectualoides humanistas, não consigo evitar pensar sobre qual seria a resposta de meu antigo professor se os ouvisse.

A verdade, para mim, é que muitos têm se tornadopapagaios idiotas na era do Facebook: repetem muitas ideias vazias, com baixíssima qualidade argumentativa, e xingam aqueles que discordam de si – como se isso servisse de cartão de visitas intelectual! Assim, aqueles de quem discordam são facilmente identificados como “fascistas”, “fundamentalistas”, “intolerantes”, “comunistas”, “esquerdistas”, “coxinhas” (direitistas), e sei lá mais o quê (a depender de sua lealdade ideológica) – e esses nobres porta-vozes da idiotice coletiva envergonham qualquer sombra de racionalidade crítica.

E o triste, para mim, é que muitos dos que fazem parte dessa atividade para desocupados – o linchamento virtual dos que defendem uma posição contrária – são os “ilustrados” das humanidades... Pelo jeito, as onipresentes leituras pós-modernas às quais foram expostos não foram suficientes para salvá-los da ignorância e, assim, podem deleitar-se com seu eterno status de idiotas virtuais!

E o antídoto? Há?... Sim: abandonem o vazio do Facebook e voltem-se aos livros (isso, obviamente, é apenas uma metáfora, mas pode ser útil a alguns se cumprirem-na ao pé da letra!). Pesquisem sobre as ideias que lhes aborrecem. Aprendam sobre as posições daqueles que tanto adjetivam. Questionem a si próprios. Você não será nem imitação de intelectual, se não conseguir argumentar. E, para argumentar, deve haver empatia – na realidade, a empatia é indispensável para que sejamos humanos plenos –, assim como conteúdo inteligível...

E, para reforçar um conselho daquele meu antigo professor: pense duas vezes antes de repetir o que parece óbvio demais!

+Gibson

Sunday, June 7, 2015

Para proteger as famílias brasileiras, diga não ao PL-6583/2013!!!


Poucas coisas ainda conseguem me chocar quando acompanho as notícias políticas do Brasil e o fanatismo “partidarista” de grande parcela da sociedade brasileira. Um dos exemplos mais recentes refere-se ao chamado “Estatuto da Família” e a seu apoio por parte de supostos defensores do “Estado mínimo”. A insensatez, incoerência e ignorância teórica desses supostos adeptos das tradições minimalistas (conservadora, liberal ou liberal conservadora no Brasil) é um reflexo do vazio “crítico” – e utilizo “crítico” aqui num senso kantista – do discurso político brasileiro. Assim, aqueles que normalmente reclamam da interferência estatal na vida do cidadão, quando lhes convém, defendem um “Estatuto”, que define o que é uma família, que estabelece “conselhos da família” etc – ou seja, que entrega ao Estado ainda mais poderes no que concerne à vida privada... E o que realmente fazem é atolar-se num lamaçal de incoerências filosóficas!

Não tenho muito tempo para escrever hoje, mas permitam-me esclarecer brevemente porque penso o que penso sobre o tema.

O artigo 2º do PL-6583/2013 (o tal Estatuto da Família), de autoria do Deputado Federal Anderson Ferreira, de Pernambuco, define “entidade familiar como o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.

Para o autor do projeto, “a família vem sofrendo com as rápidas mudanças ocorridas em sociedade, cabendo ao Poder Público enfrentar essa realidade, diante dos novos desafios vivenciados pelas famílias brasileiras.”

Em sua justificativa para o projeto, Anderson Ferreira só não cita o óbvio: a verdadeira razão para uma definição do que seja uma entidade familiar é simplesmente excluir as famílias formadas por casais do mesmo sexo. Em sua “cruzada” em favor duma definição “heterossexualizante” da constituição familiar (já que, em sua definição, uma família pode ser formada por apenas um dos genitores e seus filhos – uma constituição, per se, já não mais “tradicional”), o autor acaba por não reconhecer que famílias “tradicionais” podem também ser formadas apenas por irmãos e/ou irmãs (casos já reconhecidos, no Ocidente, desde, pelo menos, o Direito Romano).

A própria definição e o caminho político desse projeto refletem uma ausência de bom senso, tanto por parte dos que o defendem com suposta base em argumentos políticos, quanto por aqueles que o fazem com suposta base em argumentos teológicos (sobre os quais tratarei posteriormente).

Pensemos, por exemplo, naquilo que Adam Smith chamou de sistema de “liberdade natural”. Quando o Estado funciona da forma certa, deve facilitar as interações entre pessoas livres, respeitando e protegendo os direitos de cada indivíduo, independentemente de suas características individuais.

Nossas sociedades passaram, ao longo dos séculos, por transformações concernentes à forma como encaramos certos comportamentos sociais. As leis, como reflexos dessas transformações, também sofreram alterações. Assim, enquanto, há algum tempo, o casamento era visto como indissolúvel – e casais que já não mantinham um relacionamento propriamente conjugal eram forçados a desempenharem o papel social do “casal”, da “boa família” –, hoje há a possibilidade de casais desfazerem seus laços legais e se engajarem em outros relacionamentos. O Estado tem protegido o direito de o indivíduo desfazer suas ligações conjugais com outra parte, mesmo que isso acarrete um custo financeiro a uma das/ambas as partes.

O Estado também reconhece configurações familiares de facto (isto é, aquelas não formalmente jurídicas). De fato, a própria definição de família dada pelo Estatuto em questão o faz, quando diz: “[...] união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável[...]”. Ou seja, o projeto de lei defendido por supostos “tradicionalistas” reconhece outras formas de organização familiar – como uma família constituída por uma mãe solteira, por exemplo. Mas não o faz com um casal formado especialmente por dois homens, porque isso implicaria, para seu autor e defensores, uma “autorização” para a adoção por parte de indivíduos ou casais gays.

O cerne da questão não seria, então, os interesses da sociedade enquanto aglomerado político – que incluiriam, por exemplo, a proteção à propriedade, às liberdades individuais e ao direito de cidadãos livres se engajarem em contratos sociais –, mas, sim, os interesses duma mentalidade moral incoerente.

Que coerência pode haver em pessoas que, em sua visão teológica, são contrários à liderança eclesiástica feminina, mas, em sua vida política, apoiam para a Presidência da República uma mulher? Você consegue acreditar na seriedade/sinceridade deles? Que coerência pode haver quando um grupo é contrário à intervenção estatal na vida econômica, por exemplo, mas é favorável à intervenção estatal na definição das relações humanas para fins de proteção jurídica?...

Esses são apenas alguns dos problemas relacionados a esse tal “Estatuto da Família”. Infelizmente, não tenho tempo para escrever sobre todos os aspectos nos quais tenho pensado. Basta-me enfatizar que sou contrário a essa lei que, maquiando-se de protetora das famílias, presta-se apenas à subtração de proteção legal a famílias específicas!

VOCÊ QUER PROTEGER AS FAMÍLIAS BRASILEIRAS? ENTÃO, DIGA NÃO AO PL-6583/2013!!!

+Gibson

Sunday, April 19, 2015

A imprensa como fonte de "verdade"?... Só se for com ceticismo crítico!


Minha atual pesquisa sobre como a imigração – legal e paralegal – tem sido noticiada na imprensa duma cidade específica dos EUA nas últimas três décadas ensinou-me muito sobre como as pessoas encaram o papel dos meios de comunicação de massa de forma confusa. A descrição do “outro”, como o “alienígena” que vem atacar um estilo de vida e consumir recursos, parece conflitar com relatos que carregam um profundo senso humanitário no que concerne àqueles que estão distantes... Ler as notícias e as reações dos leitores, através de suas correspondências impressas nesses jornais, é uma viagem à complexidade da mente humana e do papel desempenhado pela imprensa em “sociedades democráticas”.

Para mim, enquanto a liberdade na divulgação de notícias e de opiniões é essencial à democracia – independentemente do quanto eu discorde da validade de seu conteúdo e de sua interpretação –, aquilo que é produzido pelos meios de informação é social-político-culturalmente condicionado. Assim, trato as fontes jornalísticas com certo ceticismo investigativo, pensando ser indispensável ir além daquilo que foi divulgado, se quiser alcançar um retrato mais amplo do que foi narrado (apesar de, com isso, não querer insinuar, em absoluto, que seja adepto duma teoria da conspiração da sociedade!).

A confusão, para mim, emerge quando penso que eu, sendo um defensor da “liberdade de imprensa”, encaro os noticiários com ceticismo, enquanto outros, que se apresentam como críticos daquela “liberdade”, abraçam qualquer notícia que seja favorável às suas plataformas ou representantes políticos como verdade inquestionável!

Meu ceticismo, a propósito, faz-me questionar a própria noção de “liberdade de imprensa” que, frequentemente, defendo com tanto afinco. Afinal, eu – talvez mais que qualquer outro – sei que não há liberdade plena nas redações. A “liberdade” é moldada pela cultura profissional, pelos interesses corporativos e pelos conflitos entre os atores. Assim, a “notícia” deve ser encarada com criticidade. Não quero dizer, com isso, que devamos pensar que os meios de comunicação em massa produzam mentira; mas devemos estar cientes que seus relatos – sejam eles quais forem – são produtos condicionados pelos contextos nos quais estão inseridos.

Assim, fujo dos relatos supostamente factuais e definitivos como um bom haredi fugiria de carne suína!... Como em tudo em minha vida, leio as notícias sobre o que quer que seja com olhos céticos!

+Gibson

Sunday, April 12, 2015

Democracia, Liberdade e Idiotices: Mais uma vez, o melodrama pós-eleitoral brasileiro...


Governantes e seus governos não são “amigos” dos “governados”. Aliás, “governo” e “governados” já têm sua existência baseada numa normalíssima oposição de interesses. É só olhar para a história da relação entre governados e governantes em qualquer democracia: os governados sempre emitirão críticas pesadas àqueles que os governam, pois os segundos explicitam interesses opostos aos dos primeiros – por mais “bem-intencionados” que sejam ou queiram parecer.

Obviamente, há exceções à emissão de críticas aos governantes: trata-se das realidades das não-democracias e/ou das antidemocracias. Mas não é sobre essas realidades que penso agora.

Penso, agora, sobre a patética novela pós-eleitoral brasileira, que tem demonstrado ser uma comédia de muito mau gosto – em todos os aspectos. E essa novela tem aspectos bizarros para alguém que, como eu, tenha mais o que fazer com seu tempo. É uma novela onde não há heróis nem vítimas – só idiotas (no sentido dado ao termo pelos antigos latinófonos).

Um dos grupos de personagens dessa novela é formado pelos que não sabem “perder”. Sem argumentos sólidos, e sem base evidencial, exigem a deposição da Presidente da República, como se tal evento – se fosse justo e legal, o que não considero que (ainda) seja – não trouxesse consequências traumáticas para a vida institucional, política e econômica do país. Esse grupo é formado por subgrupos, cada qual com demandas distintas – algumas das quais têm muito mais a ver com alguma patologia psicótica do que com democracia!

Um outro grupo de personagens, os que detêm mais prestígio sociocultural, é formado pelos “defensores” da Presidente da República – e aí incluem-se desde os defensores condicionais da Presidente (i.e., os defensores racionais da instituição democrática do voto), até os militantes partidários que tendem a defender argumentos menos sofisticados (sim, os que preferem a retórica do “rico versus pobre”, “branco versus negro” etc).

Há, obviamente, a personagem principal dessa comédia melodramática: a própria Presidente da República – pivô da “guerra cultural” que aqueles diferentes grupos conseguiram tirar das cartilhas ideológicas e materializar no mundo real.

Como já escrevi tantas vezes antes, ainda não vejo razões legais para que ela seja impedida/deposta. Ainda não se apresentaram evidências nem provas de que tenha cometido algum crime que justifique tal ação. Ela foi eleita através dum processo democrático, e a democracia requer que a decisão da maioria seja legalmente respeitada.

Reconhecer isso, contudo, não me impede de ver a responsabilidade que ela – a Presidente – tem diante do que acontece em sua administração. Não me impede, também, de ver a sujeira das táticas eleitorais que levaram-na à reeleição. Mas isso não é suficiente para sair por aí exigindo seu impedimento/deposição. Até porque, se pensarmos a respeito, quem ocuparia seu lugar? Não seria exatamente quem já está no governo? (Algo que os manifestantes do “Fora Dilma” aparentemente não se dão conta!)

A idiotice de todos esses grupos de personagens – a Presidente e seu governo, seus apoiadores e os defensores do “fora!” – torna-se uma grande distração para o que deveriam estar fazendo.

No caso dos idiotas apoiadores do governo, como eleitores que puseram no poder o governo do dia, esses deveriam ser os primeiros a exigir a investigação dos envolvidos nas denúncias de corrupção e a punição dos culpados. Mas, em vez disso, saem às ruas para defendê-los, como se fossem perseguidos políticos. Elevam o governo petista ao altar heroico das entidades sacras e, quando há uma nova acusação por parte da Justiça ou Polícia Federal a um membro do partido ou do governo, perdem-se em argumentações infantis. Agem como se o governo estivesse a seu favor – tolamente desconsiderando a oposição à qual me referi anteriormente.

No caso dos idiotas pró-impedimento, não precisam se esforçar muito para virar piada para qualquer um que se dê ao trabalho de refletir. Muitos apresentam-se como “conservadores”, esquecendo que a tradição conservadora há muito é democrática. Muitos de seus argumentos irresponsáveis são a principal razão para que sejam – talvez erroneamente, no caso da grande maioria deles – classificados como “fascistas” pelos demais. Certos ou errados, conservadores ou fascistas, a retórica dos membros desses diferentes grupos me causa um imenso mal-estar – eles fazem com que minha visão liberal democrata de mundo se sinta extremamente ameaçada!

O que parece haver em comum entre os apoiadores do governo e os apoiadores do impedimento é sintomático da cultura política brasileira: uma forma extremada da teoria da conspiração da sociedade, da era da Guerra Fria, que serve como um alicerce sobre o qual erigem sua retórica política. Os anos passam, as circunstâncias mudam, mas a vida política brasileira continua aprisionada ao imaginário de meados do século XX.

Eu, que tenho mais o que fazer com meu tempo e minha vida, sou um adepto da Democracia Liberal, da Constituição, das Liberdades Civis, da Legalidade; logo, não me junto a quem desafia esses alicerces de meu credo político. Não sou partidário nem eleitor do governo, e por isso estou livre para criticá-lo – e se fosse partidário e eleitor do mesmo, o criticaria ainda mais. Não tenho heróis ou heroínas políticos, assim, fui, sou e espero continuar a ser implacável em minha oposição a todos aqueles que se aproveitam do “povo” para proveito próprio, estejam eles na “situação” ou na “oposição”.

Vida longa à democracia e à liberdade – mesmo que seja a sua ou minha liberdade para dizer idiotices!

+Gibson

Saturday, March 21, 2015

Pela diversidade e multiplicidade humanas!


Nunca tive muita paciência para as ditas “amizades” virtuais – i.e., aquelas que ocorrem apenas nas “redes sociais”. Por isso, a imensa maioria de minhas “amizades” virtuais se restringem a pessoas que conheço (ou já conheci) no mundo real, com poucas exceções. Apesar, entretanto, de pensar que essas sejam apenas “simulações” de relações humanas, creio que, de certa forma, mimetizam nossos comportamentos sociais do mundo real.

No mundo real, tenho conhecidos e amigos de todas as cores, de muitas línguas, das mais variadas crenças e descrenças religiosas, de muitas nacionalidades e cidadanias, de múltiplas perspectivas políticas, e de diferentes backgrounds culturais e statussocioeconômicos. Para mim, esta diversidade é o que torna a vida humana bela, apesar de todas aquelas pequenas e/ou grandes coisas que parecem querer sabotar a beleza de nossa experiência na Terra. Eu não consigo imaginar minha vida num mundo no qual não houvesse tal multiplicidade humana.

A mentalidade de nosso tempo, da qual também sou herdeiro, louva, ao menos nominalmente, a diversidade como elemento vital da “essência” da vida social. Assim, ensinamos, escrevemos, cantamos, pregamos, pintamos, filmamos, construímos, dançamos, cozinhamos, amamos – e todos os possíveis verbos criativos imagináveis – a diversidade.

Sempre foi minha política pessoal mimetizar essa variedade também no mundo virtual.

Nos últimos anos, entretanto, tenho me surpreendido com a atitude de certos conhecidos nos mundos real e virtual. Alguns, pessoas que publicamente recitam os credos da diversidade e da tolerância, têm declarado que se afastarão daqueles que ousam pensar de forma distinta das deles – especialmente no que concerne à política e à religião. No mundo virtual, ameaçam “deletar” de seus círculos qualquer um que expresse uma opinião, geralmente política ou religiosa, da qual eles discordem!

Mais um sintoma da contradição de nossa era! Infectamos nossos professos credos políticos/religiosos com a hipocrisia de nossas atitudes arrogantes, que, consequentemente, desacreditam tais credos.

Assim fazendo, vence o espírito da iliberalidade e do conformismo opressor. Uma negação da diversidade e da multiplicidade humanas.

+Gibson

Monday, March 16, 2015

O 15 de março de 2015: primeiras reflexões


Não. Não apoio a insanidade de exigir que a Presidente da República – administração de quem tanto critico – seja impedida. Não parece haver, pelo menos até agora, razões jurídicas para que ela sofresse tal “punição”. Isso significa que não apoiei e não me envolvi com nenhuma demanda por seu impedimento, direta ou indiretamente. Também tenho refletido muito sobre as razões para as construções discursivas nas manifestações do “povo” – um conceito subjetivo e arbitrário – concernentes a essa demanda por impedimento; uma demanda que, em minha opinião, é completamente desinformada.

Seja como for, penso sobre alguns dos comentários ridículos que ouvi ou li sobre as manifestações de ontem, e gostaria de respondê-los aqui.

A “análise” (se é que posso chamá-la assim) das manifestações de ontem caíram na mesma armadilha “politiqueira” que aquelas de 2013. Para os governistas, os manifestantes se enquadrariam em duas classes:

1) Aqueles que não votaram em Dilma Rousseff nas últimas eleições – e que, por isso mesmo, seu protesto não teria peso moral nem importância política;

2) Aqueles que estariam protestando contra a corrupção que, segundo eles, teria se instalado na Petrobras, no Congresso etc, ainda na administração do PSDB, e contra políticas econômicas (como o “fator previdenciário”) implantadas pelo mesmo partido.

Em outras palavras:

Para esses brilhantes políticos, e para muitos daqueles que formam sua base de apoio intelectual no meio jornalístico e universitário, os manifestantes ou não protestavam contra a administração de Dilma Rousseff ou, no caso daqueles que o faziam, faziam uma manifestação ilegítima (por diferentes razões). Ou seja, nenhum esforço para fazer uma autocrítica!

Em minha opinião, houve um festival de idiotices nas demandas “populares” (novamente, uma construção discursiva subjetiva e arbitrária): tanto o impedimento quanto o absurdo de alguns dos manifestantes pedirem uma intervenção militar (que, a propósito, não é o mesmo que demandar um “retorno da ditadura”, como alguns interpretaram na imprensa e nas redes sociais). Entretanto, a imensa maioria dos manifestantes aparentemente demandavam o fim da corrupção e a punição dos corruptores do dia – o que inclui uma imensa lista de governistas. Ou seja, sua manifestação era, sim, contra um modus operandi que, na opinião de muitos desses manifestantes, tornara-se explícito na administração federal sob a tutela petista (sem com isso se supor que a corrupção seja uma criação petista).

A tática retórica dos governistas, e de seus lacaios, é a de deslegitimar o inconformismo político. Assim, qualquer um que se manifeste contrariamente ao governo petista é pintado em termos contrários ao que o imaginário “esquerdista” brasileiro defina como “povo”. Desta forma, ser “branco” (no caso brasileiro, mais uma construção discursiva subjetiva e arbitrária), por exemplo, é um fator deslegitimador para que essa voz seja ouvida como cidadã – seu protesto é, assim, silenciado, por ser classificado como “elitista”, “direitista”, “fundamentalista”, etc.

Em 2013, a tática de desconstrução de muitas das vozes manifestadas nas ruas incluía imputar o objetivo dos manifestantes como unicamente um protesto contra o Legislativo brasileiro e, principalmente, contra a “direita” (outra construção discursiva subjetiva e arbitrária) que já governara o Brasil anteriormente. Assim, o “povo”, quando protestava por mais e melhores serviços públicos e contra a corrupção, não o fazia contra quem detinha o poder no dia, mas contra o Legislativo (a quem não compete a administração direta daqueles serviços) e contra a “direita” (leia-se: o PSDB), que não era governo desde 2003.

Você consegue enxergar o problema aqui?

Essa mesma elite político-intelectual – me refiro, agora, aos governistas e a muitos de seus apoiadores nos meios jornalísticos e universitários – já se engaja na mesma atividade de desconstrução no que concerne às manifestações de ontem (15 de março de 2015). E a incoerência filosófico-discursiva desses é estarrecedora! Enquanto, por exemplo, não viam nenhum mal nos protestos incendiários de junho de 2013, agora enxergam os cidadãos que pacificamente protestam contra o governo petista como “elite golpista”!

Em outras palavras, crime é ser politicamente inconformista! E você destrói o inconformismo simplesmente classificando-o como “golpismo”! Esta é, ao menos, a receita dos governistas do dia!

+Gibson

Saturday, March 14, 2015

A imaturidade democrática brasileira: piada esquizofrênica de mau gosto.


A imaturidade democrática na qual estamos mergulhados, no Brasil de 2015, é uma piada esquizofrênica de muito mau gosto. Essa sintomatologia social, que tem se exacerbado desde as campanhas eleitorais de 2014, só demonstra o longo caminho que ainda teremos de percorrer para desenvolvermos uma consciência assentada sobre os princípios da liberdade e da democracia.

Não votei na Presidente da República atual. Isso não é segredo. Observando a conjuntura sociopolítica, desde antes das últimas eleições, já imaginava que ela seria reeleita – apesar de eu haver desejado que não tivesse sido. Esse era o meu desejo individual. Ele não se realizou – como eu esperava. A maioria dos eleitores escolheram confiar em quem já governava. A dinastia do dia permaneceu no poder. Ponto final no que tange aos próximos quatro anos... Ao menos para mim era ponto final!

Durante o período eleitoral, me irritei e me diverti deveras com as idiotices que ouvi e li por aí. O exagero, o fanatismo, a ignorância, o preconceito, a intolerância, a indelicadeza, a insensatez, a imoralidade, tudo isso e muito mais, parecia ter infectado a voz de muitos que eu conhecia. Me surpreendi com o fato de pessoas aparentemente tão instruídas dizerem e escreverem tanta idiotice, baseada num fanatismo partidário cômico, que me envergonhei por seu comportamento. E isso, devo enfatizar, se aplicava a todos os lados das preferências partidárias daqueles que conhecia... Uma grande pena! Uma grande vergonha!

A vergonha alheia só aumentou quando outros defendiam uma intervenção militar ou o impedimento da Presidente da República, sem compreender o sentido institucional de sua descomunal idiotice partidária. Eles esqueceram que, numa sociedade livre e democrática, temos a obrigação moral e constitucional de honrar a escolha dos outros eleitores – pelo menos até que as instituições legais decidam que deve ser de outra forma.

Por isso não posso, em sã consciência democrática, me juntar àqueles que exigem o impedimento da Presidente. Com base em quê isso seria bem sucedido? Que evidências concretas há – não suposições baseadas na paixão partidária, mas evidências que possam sobreviver ao escrutínio legal – de seu envolvimento em atividades criminosas que possam justificar seu impedimento? E o que isso faria às instituições democráticas?

Que investiguem suas ligações com os acusados de corrupção. Que investiguem o financiamento de sua campanha. Que investiguem de forma ampla e aberta. Aí, então, se forem encontradas evidências suficientes que apontem crime, eu mesmo estarei na primeira fila daqueles que pedem seu impedimento. Sem evidências concretas, só estaria fazendo o que os fanáticos partidários dos que hoje ocupam os tronos dos palácios executivos fizeram durante todo o período no qual lá não estavam. Eram eles – os petistas – quem pediam o impedimento dos anteriores (como Fernando Collor de Melo que, posteriormente, tornar-se-ia aliado da administração petista; e Fernando Henrique Cardoso que fez um imenso esforço para construir a credibilidade política de Lula da Silva no cenário internacional, antes de sua posse).

Sou contrário a essa demanda pelo impedimento, assim como sou contrário à servitude política de sindicatos e outros grupos ao governo petista. Entretanto, apesar de ser contrário às suas demandas, como um liberal democrata, sou a favor da vociferação das mesmas. Como alguém que confia na democracia e na liberdade, acredito que não há risco ou ameaça em se declarar e demandar, desde que de forma legal. Logo, o sair às ruas exigindo um impedimento não é uma ação golpista: é, antes, a manifestação duma crença ou desejo que, mesmo equivocados, representam uma parcela da cidadania. O mesmo, obviamente, se aplica àqueles que saíram às ruas para apoiar o governo.

Os fanáticos, contudo, tentarão convencê-los que o “outro” – seja ela anti- ou pró- Rousseff – é golpista e antidemocrático apenas por dar voz a uma opinião contrária. Essa atitude de construção de inimigos e de divisão forçosa de classes partidárias, para mim, é o que é a maior ameaça à democracia.

Vejamos o que ocorrerá amanhã... Até lá, estou do lado da diversidade de opiniões e, principalmente, das instituições de Direito!

+Gibson

Monday, March 9, 2015

E os instruídos inimigos do inconformismo repreendem o panelaço dos manifestantes com adjetivações chavistas: o drama pós-eleitoral brasileiro continua...


Até agora penso ser uma idiotice que se queira o impeachment de Sua Excelência a Eterna Candidata a Presidente da Terra do “A Culpa é Deles” – também conhecida como Presidente Dilma Rousseff. É uma idiotice porque, até agora, não se apresentaram razões legais para isso, apesar das inúmeras razões morais para tanto – mas se vamos utilizar razões morais para exigir o impeachment de governantes, possivelmente não permanecerá um só em todo o Brasil.

Entretanto, independentemente do que penso sobre a abertura dum processo de impeachment, é minha convicção que numa democracia o direito à demonstração legal e pacífica de discordância é sacrossanta, já que a mesma está enraizada no espírito e na letra de nossa Constituição Federal.

É ridículo ouvir e ler comentários acerca dos manifestantes contrários ao governo, e seu panelaço de ontem, como se todos eles fossem “a elite golpista e intolerante”. Nem todos eles não são uma elite golpista – adjetivo vago, esclareça-se, tão utilizado pelo chavismo venezuelano e seus clones do resto do continente para classificar toda voz discordante que se erga contra eles (e já plenamente absorvido pelos ainda detentores do poder do dia no Brasil, tão temerosos de perder “a coroa e o cetro”). Eles – os manifestantes tímidos de alguns dos bairros menos “populares” brasileiros – são cidadãos da República e, como tal, têm o pleno direito a manifestar sua inconformidade com o que queiram.

A noção de democracia desses politiqueiros (i.e., os políticos governistas, mas também da "oposição") e, aparentemente, também dos autores dos discursos da citada Presidente, entretanto, exclui da cidadania as vozes discordantes. Os que discordam, aqueles que se demonstram inconformes, são vilanizados como inimigos da democracia, logo, do povo, do Estado e da cidadania... Ora, senhoras e senhores, será que já não conhecemos este discurso de vilanização da oposição? Não foi assim que ditaduras se estabeleceram e se sustentaram no poder ao redor do mundo (fossem elas de direita, de centro, de esquerda, de baixo, de cima)? Não foi assim que tão facilmente dividiram nações e construíram inimizades artificiais para justamente enfraquecer a democracia e manter-se no poder sobre os alicerces do medo?

É interessante como vilanizam cidadãos que batam em suas panelas, classificando-os de “elite golpista e intolerante”, mas que outros também cidadãos que violam as leis, destroem, atacam propriedades públicas e privadas, em nome dum suposto protesto, sejam classificados como “democratas”. Isso só demonstra o quanto ainda temos de aprender o sentido de viver numa sociedade plural!

+Gibson