Gibson da Costa
Caro Gustavo,
Escrevi o texto abaixo como resposta a um e-mail que me foi enviado
em 2016 sobre o projeto "Escola Sem Partido" e a questão da pluralidade
de ideias em sala de aula. A pessoa que me escreveu então, Sandra, levantara as mesmas questões que você. Por essa razão, minha resposta aqui será a mesma que produzi há dois anos. (A original se encontra aqui.)
Como você já pode imaginar, discordo frontalmente de sua opinião. E permita-me expor minhas razões.
Como você já pode imaginar, discordo frontalmente de sua opinião. E permita-me expor minhas razões.
Projetos
de Lei como esse do ESP não representam uma “solução” para a educação
brasileira. Em primeiro lugar, o uso que você faz do termo “solução”
implica que haja um “problema”, mas você não identificou a que problema
se referia. Em segundo lugar, mesmo que eu acreditasse que houvesse um
problema “fundamental” com a educação, lei alguma poderia dar conta de
todos os problemas que possam haver numa determinada área da vida
social, como a educação.
Trata-se,
na verdade, duma questão de visões distintas de mundo e, mais
especificamente, do que significa ser um humano. Por exemplo, ao tratar professores como “manipuladores”, o discurso do ESP explicita sua visão dos estudantes:
seres passivos, não reflexivos, que são “manipuláveis” – ou seja, não
têm nem um pensamento próprio, nem responsabilidade para com suas
próprias escolhas. Assim, para mim, o ESP só reforça um problema real
que existe na sociedade brasileira como um todo e que, obviamente, se
reproduz na escola. O nome desse problema é: AUTORITARISMO.
Voltemos ao art. 2º, inciso III, do Projeto de Lei nº 193/2016
do Senador Magno Malta – ou dos projetos assinados, com o mesmo texto,
por diferentes vereadores, deputados estaduais e federais. Nele, se
estabelece o princípio da “liberdade de aprender e de ensinar”. Agora, compare isso ao art. 3º, inciso II, da LDB (Lei nº 9394/1996), que, por sua vez, estabelece como princípio a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”.
A diferença, que é explícita, chega a representar uma “violência
simbólica”: a liberdade proposta pelo ESP é apenas a “liberdade” de
receber e de transmitir “conteúdos” (na realidade, poderíamos até mesmo
discutir as noções de “liberdade” e de “conteúdo” que se escondem por
trás dos projetos de lei e dos discursos dos partidários do ESP).
O que o ESP propõe é a “desintelectualização” do ensino e da aprendizagem – e, consequentemente, sua desumanização.
Sua visão não é de um professor pesquisador, autor, pensador. O
professor do ESP é um mero transmissor de “conteúdos”. Ele recebe uma
informação pronta e acabada de alguém que esteja numa posição
hierárquica superior – os autores de livros didáticos (livros esses
utopicamente higienizados de traços ideológicos com os quais os ESPistas
discordam) ou sei lá mais quem! – e os transmite aos seus alunos.
Os
alunos, por sua vez, são apenas receptores nessa cadeia transmissora de
informações empacotadas. Eles são meros produtos duma tradição. Devem
conhecer e seguir as regras, as normas, os ditos, o “certo”. Por isso,
para os adeptos e defensores dessa visão diminuta da humanidade, ensinar
e aprender limita-se a transmitir e memorizar fatos – sem crítica, sem
questionamentos, sem provocações. Se pudessem, se desfariam de todos os
professores e fabricariam o “mestre novo”: a máquina que
conhece seu lugar (como retransmissor duma tradição construída para
silenciar o lugar do ser humano) e sabe colocar o estudante em seu
próprio lugar (como humano submisso à hierarquia dos que sabem mais do
que ele e do que seus professores – a hierarquia autora do próprio ESP).
Assim,
a deseducação proposta pelo ESP é aquela levada a cabo por um professor
que não provoca. O aluno que o ESP quer produzir é aquele que não
discorda (na verdade, só discorda se o professor for uma dessas
criaturas etéreas que os apoiadores do projeto chamam de “esquerdista” ou “comunista”
– e que seria todo aquele que discorda da visão de mundo proposta pelo
ESP). Tudo segue o rito estabelecido na cartilha da hierarquia
autoritária: uns falam, outros ouvem; uns mandam, outros obedecem!
Essa é a “solução” proposta pela ideologia do Escola Sem Partido! A “solução final” para a educação brasileira!
Você se refere a um “filósofo” que apoia o movimento. Como um “filósofo” pode apoiar o não questionamento? Ninguém que apoie a criminalização da expressão de ideias e conceitos pode ser tomado como “filósofo”.
É, no máximo, uma fraude com um bom trabalho de marketing! Ele pode ser
aplaudido por sua audiência, admiradora dos termos sofisticados e das
assombrosas referências que faz aos “comunistas” (termo genérico aplicado a qualquer um que discorde de sua visão de mundo) ou, quando tenta ser mais elegante, aos “socialistas fabianos”, mas o que é sua mensagem além de um apelo ao autoritarismo ideológico?!
A
propósito, uma maneira de selecionar o que escutamos – o que, em si, é
uma atividade intelectual – é justamente sabermos quem nos fala. Quais
são as ideias que essa pessoa defende? O que essa pessoa faz? Como ela
ganha a vida? Por que ela diz o que diz? Quem apoia o que essa pessoa
faz? Quem ela mesma apoia?
Por
exemplo, não é curioso que os autores e defensores desses projetos de
lei patrocinados pelo ESP – incluindo o citado “filósofo” – não incluam
professores? Como essas leis se dirigem a professores da Educação
Básica, seria razoável esperar que entre seus autores e apoiadores
houvesse professores da Educação Básica (as pessoas que têm formação,
conhecem a vida escolar, a atuam na sala de aula regular). Mas, não há. E
o “filósofo” que você cita não é professor do ensino regular – nem no
Brasil, nem onde vive!
Posso deixar claro o que penso que você deve saber a meu respeito:
Sou
um professor. Ensino na Educação Básica e Superior. Não estou ligado a
políticos. Não trabalho para partidos políticos ou candidatos políticos.
Mas, obviamente, abraço um conjunto de ideias filosóficas que moldam
minha visão política.
Acredito
na liberdade de opinião e de expressão de opinião, e a defendo em minha
prática. Minhas crenças filosóficas, religiosas e políticas, e minhas
perspectivas teóricas, não são impostas a meus alunos e alunas como a
única opção aceitável; mas elas, obviamente, estão presentes em tudo o
que faço. E isso ocorre porque sou um ser humano, e não uma máquina. Por
mais que queira e me esforce para manter um ambiente de abertura na
sala de aula, ainda sou um indivíduo – ou, se preferir, um “sujeito
histórico” –, o que implica que estou condicionado pelo que conheço e
experiencio do e no mundo. E é exatamente por isso que considero a
exigência duma suposta “neutralidade” como uma aberração irracional.
Nunca
neguei que, de fato, houvesse professores que faziam apologias
partidárias em sala de aula. Há professores que o fazem. Há professores
que impõem sua compreensão filosófica como a única aceitável, correta,
certa. Mas esses professores são uma minoria. E os que o fazem, são
partidários das mais diferentes visões políticas; coletivamente, sofrem
possivelmente de uma formação deficitária, e, individualmente, de um
deficit ético. O problema na formação desses professores é o mesmo
presente nas propostas do ESP: a visão da educação como um instituto
autoritário, no qual o professor é um (re)transmissor e o estudante é um
receptor.
Contudo,
reconhecer que haja professores que “imponham” uma única visão da
realidade social a seus alunos não é equivalente a dizer que esses
estudantes sejam “manipulados”. Eles, em sua maioria, não o são. E não o
são porque pessoas psicologicamente saudáveis não são “manipuláveis”
como marionetes. Os
estudantes não chegam à escola como tábulas rasas. Eles conseguem
compreender o mundo ao seu redor. A eles podem faltar conceitos
sofisticados e um conhecimento da “gramática teórica”, mas, ainda assim,
são capazes de legitimar ou deslegitimar discursos. Negar isso, dizendo
que os estudantes são “manipulados” pelos professores, é negar sua
humanidade e sua capacidade de autonomia.
Então,
se quer uma sugestão minha para lidar com as questões levantadas pelo
ESP, talvez devêssemos começar por fazer um pacto – os professores, os
pais, a escola, as autoridades educacionais, o ESP, o Poder Legislativo
etc – pela autonomia do estudante. Os estudantes não são ratos de
laboratório; são seres humanos e, assim, podem entender muito mais do
que os legisladores e seus apoiadores conseguem imaginar. E nós,
professores, já sabemos disso há muito tempo. Já está mais do que na
hora de pôr o que sabemos sobre aprendizagem, sobre o desenvolvimento
cognitivo de crianças e adolescentes em nossa própria prática. Sejamos
plenamente honestos com nossos estudantes: ESP, confesse aos jovens
estudantes suas intenções autoritárias! Professores “manipuladores”,
confessem aos seus alunos de onde saíram suas visões de mundo!...
Verdadeiros professores: façamos nosso trabalho – é um direito de nossos
estudantes!
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