Saturday, February 28, 2015

A sabedoria de Sua Excelência a Eterna Candidata a Presidente da Terra do "a culpa é deles"!


Quando me dou ao trabalho de ouvir atentamente o que diz nossa ilustre Presidente da República, me aborreço. E meu aborrecimento vem do fato de que ela não demonstra a coragem de realmente encarar os problemas nacionais e abandonar a persona de candidata sobre um palanque eleitoral (persona da qual ela parece ter um sério problema para se desprender!).

Diferentemente de seus ilustrados eleitores, que se encobrem com a suposta habilidade de analistas do discurso – claro, quando o objeto de sua análise se tratar do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, que já não governa o país há treze anos, ou de candidatos do PSDB –, não me esqueço das promessas feitas pela Presidente-eterna-candidata durante as campanhas de 2014.

Ontem, quando ouvi mais um trecho de sua eterna campanha eleitoral – oficialmente chamado de “pronunciamento presidencial”, ou sei lá o quê –, não sabia se ria da piada ou se chorava pela tragédia. Ela mudou aqueles argumentos utilizados contra a campanha de Aécio Neves (PSDB), há apenas alguns meses atrás, e agora gloriosamente afirma que:

a) o preço da energia sobe por conta da falta de água;

e,

b) hoje enfrentamos a maior falta de água dos últimos cem anos.


Ou seja, para a ilustre Presidente-eterna-candidata, falta água não porque sua administração foi incompetente para planejar meios de lidar com a estiagem (incompetência que ela tão facilmente lembrou de atribuir aos governos do ex-Presidente FHC, e ao atual governador do Estado de São Paulo), mas porque – como alguns diriam – “São Pedro” não fez seu trabalho! E já que ele descumpriu sua função de controlador das chuvas, a Presidente-já-reeleita pode punir os bolsos nacionais!

O que é realmente interessante nessa história toda é o silêncio dos “analistas do discurso” partidários de Sua Excelência a Eterna Candidata! Vai ver que, para “eles”, FHC é o responsável pela falta de água e o responsável pela subida dos preços!

Afinal de contas, para “eles” (esses “analistas do discurso”), FHC é quem deve ser responsabilizado pelo que ocorre na Petrobras, como o quer Sua Excelência a Eterna Candidata!

Esqueçam o fato de a dinastia “trabalhista” e seus lambe-pés estarem no poder há quatro mandatos! Esqueçam o fato de que controlaram o Congresso e a maioria das assembleias estaduais durante todo este tempo! Esqueçam o fato de que controlaram todas as empresas estatais durante este período!...

A culpa de tudo isso é de FHC, do PSDB, da “direita”, da elite branca, dos “imperialistas” europeus e norte-americanos... ah, claro!, e não esqueçamos do mais novo (ir)responsável: São Pedro!!!

Não sei se rio ou se choro!

+Gibson

Wednesday, February 11, 2015

As campanhas “eleitoreiras”, quem diria?, não acabaram!


As campanhas “eleitoreiras”, quem diria?, ainda não acabaram! Não acredita em mim? É só observar a tática dos ativistas governistas no que tange ao escândalo da Petrobras.

Pelos crimes praticados pelos administradores da Petrobras, “eles” culpam a Rede Globo e a “direita” PSDBista!... Dá pra acreditar?!... Claro que não foram os administradores partidários incompetentes de hoje – cuja tradição, diga-se desde agora, já estava presente na administração tucana e em todas as anteriores. Mas, no Brasil comprado pela nudez carnavalesca e silenciado pela política do “pão e circo”, é mais fácil apontar os culpados de treze anos atrás do que enfrentar os corruptos e corruptores heroizados desta manhã. Enfatiza-se o passado – que, sim, deve ser investigado – para esconder os crimes do presente, transformando, assim, criminosos em vítimas!

Se ainda não deixei isto muito claro, vale repetir: não confio nos detentores dos assentos executivos, sejam eles de que partido for. Entretanto, o PT, depois de toda a corrupção explicitada especialmente nos últimos nove anos, é menos digno de confiança ainda. Os adeptos do culto político que se estabeleceu em torno de seu “clero” e de seu mito discordarão de mim e darão as respostas idiotas já conhecidas, mas não me importo com seu raciocínio mentecapto!

A “chefona” e seus lacaios encontraram uma saída argumentativa (será?!): é só repetir que nunca antes se investigou e puniu tantos malfeitores como hoje. Assim, eles quebram até mesmo os muros que separam os poderes republicanos! E seus serviçais ignorantes nas “redes sociais” tatuam-se com o sórdido lixo amoral que se tornou sua eterna campanha “eleitoreira”.

Como sempre digo, repito agora: os eleitores merecem o governo ao qual se submetem e cujos pés lambem! [Seja sua face a Federal, a Estadual ou a Municipal.] Então saboreiem a lama que compraram!

Gibson – o cidadão farto da sordidez governista

Thursday, January 22, 2015

O “tiro no pé” do Mormonismo ortodoxo em sua tentativa de silenciar o corajoso John Dehlin: quando discordar respeitosamente torna-se uma declaração de guerra


Gibson da Costa

[…] Os mórmons devem ser tratados como inimigos, e devem ser exterminados ou expulsos do estado, se necessário, para a paz pública – seus ultrajes estão além de qualquer descrição. […]
(Ordem Executiva nº 44, do Governador Lilburn W. Boggs, do Estado de Missouri – 27 de outubro de 1838)

Antes que você se choque com a citação acima nesta página, é bom que eu esclareça que não a incluí aqui por concordar com suas palavras. Se você não tiver ligação com a tradição dos “santos dos últimos dias” (SUD), conhecida popularmente como “mormonismo”, nem dedica-se ao estudo da tradição a partir de seu exterior, possivelmente desconhece a história de perseguição e sofrimento que seus primeiros adeptos sofreram. Não é exagero afirmar que os “mórmons” consistiram o grupo religioso mais brutalmente perseguido na história dos Estados Unidos – o que, de certa forma, ajuda a compreender seu senso de vitimização e exclusão enraizada especialmente na memória das comunidades “mórmons” de Utah e de estados vizinhos, e a cultura de intolerância institucional à não-conformidade doutrinária ou hierárquica n' A Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Últimos Dias (AIJCSUD) [sim, o artigo definido feminino singular é parte do nome da denominação, por isso a não contração aqui].

Hoje, a vítima dessa cultura é John Dehlin, um prominente intelectual e blogueiro SUD que ousa defender publicamente posições sobre o tratamento de mulheres, de minorias étnicas e sexuais e de intelectuais, na AIJCSUD, que entram em conflito com as práticas da denominação com relação aos não conformistas em seu seio.

No próximo dia 8 de fevereiro, Dehlin será levado diante dum Conselho Disciplinar de sua igreja para ser julgado por sua “apostasia” (heresia). Seus líderes o julgarão com base em sua auto-apresentação, em sua página na internet, onde afirma:

Tenho um profundo amor pela igreja SUD, por seus membros e por seus ex-membros. Me considero como um mórmon não ortodoxo e não ortopráxico. Acredito em muitas dos ensinamentos morais centrais e não-distintivos do Mormonismo (por exemplo, amor, generosidade, caridade, perdão, fé, esperança), mas ou tenho sérias dúvidas sobre, ou não mais acredito em muitas das reivindicações de verdades fundamentais da igreja SUD (por exemplo, o Deus antropomórfico, “única igreja verdadeira com autoridade exclusiva”, que o atual profeta da igreja SUD recebe comunicações privilegiadas de Deus, que o Livro de Mórmon e o Livro de Abraão são traduções, poligamia, ensinamentos racistas no Livro de Mórmon, que ordenanças são exigências para a salvação, obras em favor dos mortos).
[…]
Creio que muitos líderes da igreja SUD têm boas intenções, mas me perturbo profundamente por seu tratamento histórico e atual das mulheres, de minorias raciais e sexuais, e de cientistas/intelectuais. Perturbo-me também por sua abordagem histórica e atual à fé/dúvida, sexualidade, pela busca de vastos interesses comerciais juntamento com sua não divulgação de seus dados financeiros, coerção/envergonhamento de membros por meio do impedimento de privilégios no templo e no sacerdócio, e a atual mentalidade de adoração à liderança na igreja SUD. Creio que o desencorajamento de críticas a líderes da igreja SUD é, possivelmente, o aspecto mais pernicioso e prejudicial da cultura da igreja SUD – e que a luz do sol e a candura sejam os melhores desinfetantes.

Dedicarei os anos restantes de minha vida a: 1) ajudar a minimizar o dano, e maximizar o bem, nas culturas secular e religiosa, e 2) ajudar aqueles que estão deixando a ortodoxia religiosa a encontrar alegria, sentido e satisfação em suas vidas, famílias e comunidades – seja dentro ou fora duma estrutura eclesiástica formal.
[…]

Esse é o pecado de John Dehlin. Sua grande apostasia e rebelião!

O julgamento perante um Conselho Disciplinar, a propósito, é um procedimento comum a todos aqueles que são acusados de pecados sérios no “mormonismo”, o que inclui o quase imperdoável pecado de questionar a doutrina ou discordar da hierarquia da AIJCSUD. Ocorre sob a presidência do Presidente de Estaca (“Estaca” é o correspondente a uma diocese nas tradições anglicana, luterana ou católica, por exemplo). A punição pode chegar ao máximo de excomunhão – que, na teologia mórmon, significa perda da “exaltação”, caso não haja um arrependimento pleno, e o isolamento social pleno (já que um excomunhado frequentemente é discriminado por seus amigos e familiares SUD – ou seja, como diria uma amiga minha que já passou por isso, “o mal é cortado pela raiz”).

Antes que você questione as motivações de Dehlin, vale a pena saber quem ele é.

Nascido na “mormoníssima” Boise, em Idaho – apesar de criado no Texas –, Dehlin vem duma tradicional família SUD. Após servir como missionário na Guatemala para sua igreja (1988-1990), frequentou a BYU (Universidade Brigham Young), onde se formou em Ciência Política. Depois de formado, trabalhou para várias empresas da área de computação, incluindo a Microsoft, e para a própria AIJCSUD. Trabalhou, ainda, para a Universidade Estadual de Utah e para o MIT, no desenvolvimento e coordenação de programas de educação online.

Na Universidade Estadual de Utah, também fez seu mestrado, pesquisando o desenvolvimento dum tratamento para o TOC baseado na experiência religiosa, com foco na população mórmon de orientação gay que se submetia a tentativas de mudança de orientação sexual. E, hoje, termina seu doutorado em Psicologia Clínica e Aconselhamento, aprofundando sua pesquisa sobre a relação entre religião e saúde mental.

É casado com Margaret – os dois foram ortodoxamente “selados” num templo SUD –, e é pai de três filhas e um filho.

Ele tem sido um personagem central no movimento de levar o “mormonismo” para o universo das discussões online com aqueles mórmons interessados em discutir a história e as ideias da tradição SUD. Seu trabalho tornou-se, desde o início dos anos 2000, um suporte especialmente àqueles SUD que se viam excluídos por não poderem discutir suas dúvidas, nem encontrarem uma rede de apoio dentre seu próprio povo. Participou na organização duma rede de mórmons para apoiarem jovens gays mórmons, que sofrem uma alta incidência de suicídio, especialmente em Utah e estados vizinhos. Tornou-se um bastião de esperança para muitos em sua própria denominação.

Dehlin disse hoje numa entrevista ao The Salt Lake Tribune que se for excomunhado, respeitará a decisão da igreja. Para ele, a igreja tem o direito de decidir quem pode continuar a ser membro.

O que os poderosíssimos líderes mórmons de Utah não se dão conta, entretanto, é que sua já longa perseguição a John Dehlin – baseada numa afirmação feita fora da igreja por um membro que não ocupa posições de liderança na mesma – poderá tornar-se um “tiro no pé” da própria igreja SUD. Imaginem ter de explicar isso ao eleitorado dos Estados Unidos do século XXI, se Mitt Romney se pré candidatar, mais uma vez, a Presidente dos EUA... É aguardar e ver o que acontece!

+Gibson

Saturday, January 10, 2015

A onipresença da polarização na relação com “o outro”





Ela parece estar em todos os lugares. É só estar atento ao que se diz lá fora. A polarização parece, muitas vezes, haver se tornado o termo que resume bem o espírito vocalizado nos meios de comunicação e nos púlpitos políticos e religiosos mundo afora.

Obviamente, nos negamos a reconhecê-la como parte de nosso sofisticado imaginário (pós)moderno – mas, por mais que neguemos sua presença, ela está lá, envergonhando nossa suposta capacidade de racionalizar, de forma refinada, nossa realidade social. Gostemos ou não, a onipresente polarização nos domina.

Defrontadas com uma perceptível ameaça externa, as pessoas tendem a se esquecer de suas diferenças e a formar um grupo unificado. Esse processo de coesão é uma característica importantíssima da polarização. A melhor representação pictórica disso encontra-se nas imagens do atual e do anterior presidentes franceses, Hollande e Sarkozy, juntos esta semana. As diferenças são engavetadas, mesmo que apenas temporariamente, em nome dum objetivo supostamente comum – no caso dos franceses, a “guerra ao terror”.

As imagens dos protestos na Alemanha contra a presença de imigrantes muçulmanos no país – que, confesso, me aterrorizaram, por se parecerem com protestos semelhantes aos do nascente movimento nazista no século XX – apontam para outra característica dessa polarização de nosso tempo: a estereotipagemdo outro. A mesma característica, aliás, presente no Brasil durante as campanhas eleitorais, e mesmo depois. Grupos rivais que adotam um conjunto de opiniões exageradamente simplificadas sobre as supostas características de seus oponentes, presumindo que todos eles compartilhem um conjunto de características indesejáveis. É só escolher o grupo simplificado: a direita; a esquerda; os fundamentalistas; os ateus; os evangélicos; os muçulmanos; os judeus; os homossexuais; os heterossexuais; os negros; os brancos; os homens; as mulheres; os ricos; os pobres; os brasileiros; os norte-americanos – e lembrar-se dos adjetivos que frequentemente são associados a esses “grupos”.

Subjacente ao desenvolvimento daquelas ideias estereotipadas sobre o outro, além dos demais aspectos da polarização, encontra-se o fenômeno da percepção seletiva. Ou seja, tendemos a ver e ouvir aquilo que esperamos ver e ouvir, especialmente quando nossas emoções encontram-se à flor da pele. Baseados no que percebemos, frequentemente reagimos de formas antagônicas aos outros, e eles, como resposta, agem de formas tais que acabam por confirmar nossas expectativas. E quanto mais intensas as emoções, maiores são as probabilidades de isso ocorrer. Mais uma vez, é só pensar no que ocorreu no Brasil durante as últimas campanhas eleitorais e imediatamente após as eleições: a ameaça da “direita” no discurso de alguns, aparentemente confirmada, posteriormente, por marchas que pediam o retorno do regime militar!

Mas a tendência de grupos polarizados a desenvolverem ideias exageradamente simplificadas (estereótipos) não se limita apenas a ideias sobre seus oponentes, também inclui estereótipos sobre si próprios. Assim, aquilo que os oponentes apontam como características indesejáveis, muitas vezes, transformam-se em ideias e racionalizações simplificadas (ideologias) que justificam os próprios sentimentos ou comportamentos. E porque as ideias são exageradamente simplificadas e imprecisas, a ideologia unifica pessoas que, de outra forma, discordariam entre si. Presos às teias da polarização e suas emoções auxiliares, poucos se dão ao trabalho de comparar a ideologia à realidade.

Quando a polarização domina, o desenvolvimento do comportamento “defensivo” de cada grupo torna-se padrão. O processo toma forma num espiral de ação-reação, que pode até resultar, em casos extremos, em muitos “defensores” mortos. E, obviamente, o elemento crucial nesse processo não é “a verdade” sobre o outro ou sobre si, mas aquilo que se pense ser verdadeiro sobre o outro e sobre si mesmo.

O espiral da ação-reação e a percepção das ações do oponente como ofensivas não são, necessariamente, processos irracionais. Como cada grupo vê o outro como uma ameça real, e a polarização se intensifica, o próximo passo defensivo lógico se torna um “ataque preventivo”. Por exemplo, um exército que se concentre numa fronteira para evitar uma invasão se parece muito com um exército que se prepara para invadir!... Não muito diferente da forma como nossas sociedades têm se comportado interna e externamente – só temos de nos dar ao trabalho de observar.

...Tornamo-nos, infelizmente, escravos dos processos de polarização em nossas relações com “o outro”. A polarização tornou-se onipresente!

Gibson

Friday, January 9, 2015

O espetáculo do terror e o assassínio de nossa humanidade


Qualquer interessado que se dê ao trabalho de pesquisar cuidadosamente o tema saberá que não há uma definição globalmente aceita do que seja terrorismo. Isso faz com que, como escrito por Brian Jenkins ainda em 1974, o termo seja usado promiscuamente, aplicado a todo tipo de violência que, estritamente falando, não seria terrorismo. Todas as mais frequentes definições de terrorismo, entretanto, concordam que o mesmo seja um instrumento utilizado por certos atores para atingir certos objetivos, espalhando medo e ansiedade por meio de atos violentos; e esses atos violentos seriam parte do instrumento, e não o objetivo per se (JENKINS, 1974; HOFFMAN, 1998; GANOR, 2005; NEUMANN, SMITH, 2008).

Se nos ancorássemos à antiga perspectiva de Jenkins, aceita até 2001, abraçaríamos aquela sua conhecida ideia de que terroristas queririam muita atenção e não muitas mortes. Hoje, apesar de haver mudado sua perspectiva acerca do número de mortes desejado por terroristas, o autor – e todos os demais especialistas em terrorismo do mundo – continua a defender sua crença de que a publicidade do ato seja uma característica central de qualquer ação terrorista. E a importância da publicidade reside no fato de esta servir de meio para alastrar o medo e a ansiedade generalizada.

Pare e pense, por um instante, no caso francês. Foi uma tragédia humana – e, para mim, tragédia em absolutamente todos os sentidos (no que tange às vítimas, à sociedade espectadora e aos próprios criminosos). Uma tragédia que nenhum de nós – supondo que você pense como eu – gostaria de ver repetir-se em lugar nenhum do globo.

Pare e pense, agora, na cobertura dada pela mídia global à “caçada” policial a esses criminosos. Diferentes jornais, revistas, redes de televisão e rádio, do mundo inteiro, têm feito seu trabalho e divulgado as notícias relativas ao caso. Mas a cobertura – que, sim, deve acontecer, especialmente num caso em que profissionais da imprensa foram vitimados –, principalmente quando feita de forma sensacionalista, não deixa de contribuir para o objetivo final de qualquer ação terrorista: conseguir publicidade suficiente para criar um temor e ansiedade generalizados. A notícia, assim, tão essencial à liberdade e à democracia, transforma-se numa espada de dois gumes: informa-nos ao mesmo tempo em que nos torna mais uma peça no tabuleiro do jogo do terror (cujo objetivo é vencer-nos pelo medo).

E a imposição de medo intentada por terroristas tem feito mais danos às liberdades civis, naquilo que chamam de Ocidente, do que tem causado mortes diretas. A maior morte causada pelo terrorismo nas sociedades ocidentais têm sido o assassínio das antigas ilusões de liberdade e igualdade sob a lei, como uma forma de assassínio de nosso senso moderno de humanidade. Pergunte isso a qualquer muçulmano na Alemanha, França, Grã-Bretanha ou Estados Unidos, só para citar alguns casos. Essas pessoas, inocentes dos crimes cometidos pelos supostos jihadistas que vimos nos noticiários nos três últimos dias, são as que antecipadamente já pagam o preço, tendo agredidas suas dignidades e liberdades. Esta é uma cena que tem se repetido desde, pelo menos, 2001. Soa, ironicamente, como uma grande vitória dos terroristas.

Hoje mesmo, mais 7 pessoas morreram em outro atentado em Islamabad, no Paquistão. Onze haviam morrido ontem, em outra região do país. Uma bomba explodiu dentro duma mesquita no Iraque – algumas dezenas de mortos. Você viu isso ser relatado em algum noticiário de onde você está? Por que não? Por que isso não afeta nossa sensibilidade? Isso não é uma afronta ao nosso senso de liberdade e dignidade? Não é uma afronta à nossa humanidade?... Só alguns pensamentos para terminar minha sexta-feira!

Gibson



Referências:

GANOR, B. The Counter-Terrorism Puzzle: a Guide for Decision Makers. New Brunswick: Transaction, 2005. p.1-24.

HOFFMAN, Bruce. Inside Terrorism. Nova York: Columbia University Press, 1998. p.13-44.

JENKINS, Brian. International Terrorism: a new kind of warfare. Santa Monica: RAND, 1974.

NEUMANN. Peter R.; SMITH, Michael Lawrence Rowan. The Strategy of Terrorism: how it works, and why it fails. Nova York: Routledge, 2008. p.1-11.

Sunday, January 4, 2015

Educação moral?


Numa conversa sobre educação, ouvi comentários de alguns colegas sobre questões relativas à moral que me deixou confuso sobre se realmente conseguiam compreender o papel da moralidade na educação. Mesmo alguns pesquisadores da educação costumam, aparentemente, confundir a validade da preocupação moral na educação escolar com um antigo componente curricular ensinado durante o último regime militar brasileiro (a chamada “Educação Moral e Cívica”). Aqui, gostaria de brevemente explicar porque acredito que o que fazemos na escola pode ser identificado como educação moral.

Sei o quanto a maioria dos professores provavelmenteodiaria me ouvir dizendo isso, mas o direi assim mesmo: o ensino dos componentes curriculares da área das chamadas “ciênciashumanas” está, inevitavelmente, entrelaçado a uma educação moral dos alunos. E não digo isso apenas para fazer um trocadilho com o nome da antiga matéria que se ensinava nas escolas brasileiras durante o último regime militar!

Se você ainda não desistiu de continuar a ler este texto, permita-me apresentar minha defesa.

Na escola, sempre que abordamos algum tema que lide com problemas que enfrentamos socialmente, no passado ou no presente – e a abordagem de tais tipos de temas ocorre com frequência na área das humanidades –, tomamos posições no que concerne a tais problemas (voluntária ou involuntariamente, favorável ou infavoravelmente, etc). Assim, se tratamos acerca de temas como escravidão, guerras, racismo, sexismo, liberdade de pensamento, discriminação religiosa, colonialismo, violência, trabalho infantil, migração etc, explícita ou implicitamente expomos nossa compreensão da natureza moral de tais questões. Se, em aula, por exemplo, condenamos o racismo, a violência e a exploração, seja por acreditarmos que sejam imorais, ou simplesmente porque somos obrigados pela legislação ou pelo senso de correção política, não importa – o que importa, aqui, é que essa condenação faz parte duma educação moral do aluno.

Felizmente, ainda não tive o desprazer de conhecer um professor ou professora que ensinasse a seus alunos que um ser humano de pele negra seja, cientificamente comprovado, inferior a um ser humano de pele branca, ou que não há nada errado em sair por aí resolvendo seus problemas por meio da força. Todos os professores e professoras que conheci até hoje na Educação Básica têm, felizmente, ensinado, explícita ou implicitamente, coerente ou incoerentemente, que há limites entre o moral e o imoral nas relações humanas – na Educação Superior isso se dá de forma distinta, onde já ouvi defesa de posições que, obviamente, não se poderia defender diante de crianças ou adolescentes. Todos esses professores e professoras, mesmo na Educação Superior – novamente, explícita ou implicitamente, coerente ou incoerentemente –, levam a cabo uma educação moral.

Quando, por exemplo, um professor universitário, que seja crítico do que chama de “moralismo religioso”, professa uma palestra acerca da condição da mulher na “sociedade patriarcal machista”, incitando reflexões e incentivando mudanças de comportamento, o que ele está fazendo é educação moral. Comparando isso ao que seria feito tradicionalmente por um religioso, por exemplo, suas premissas, suas razões, os detalhes de suas argumentações, e mesmo suas conclusões podem ser distintas, mas ambos estariam engajados num tipo de educação moral. O mesmo ocorre na escola. Você não precisa ser religioso, acreditar numa deidade, ou corresponder a todas as expectativas tradicionais de moralidade ou eticidade para se engajar no processo de ensino-aprendizagem moral. Só precisa ser humano!

Thursday, January 1, 2015

Um protesto cinematográfico contra os primeiros cortes de 2015


Mesmo que sejam necessários cortes em gastos públicos, me surpreende que a reeleita Presidente da República os inicie nos direitos atuais dos trabalhadores. Ela não anunciou cortes em gastos com os milhares de cargos comissionados, por exemplo; não – os cortes foram nos direitos daqueles a quem ela jurou lealdade, os brasileiros mais pobres.

Eu, o não socialista, não petista, inicio meu 2015 protestando contra o assalto feito pela ilustre Presidente contra as camadas mais baixas da população. Faço aquilo que seus eleitores não fizeram até agora, tão ocupados com o pão e circo de final de ano.

A pergunta que resta é: onde estão os defensores do “para o Brasil continuar mudando”? Se calam agora? Defenderão agora o que ela dizia ser o plano da “direita”?

Como protesto, deixo uma das mais belas e inesquecíveis cenas do cinema em 2014. As mulheres, mães e filhas dos mineiros galeses cantando “Bread and Roses” no filme Pride, em protesto contra as ações do governo para com os mineiros britânicos em 1984.


(A canção começa a partir de 1:07m.)



Para o Brasil continuar mudando?!


Você ainda se lembra das eleições de 2014? Eu não esqueci.

Lembro-me, por exemplo, do espetáculo brutal de idiotices, subserviência e ignorância por parte dos ativistas partidários – fossem as marionetes subalternas do partido governista, fossem os imbecis vistos como porta-vozes da patética oposição. Aquele espetáculo foi um escarnecer da inteligência cidadã dos brasileiros, magnificado pelas campanhas sujas, especialmente a daquela que deveria ter se esforçado para dar um modelo maior, por já estar no Planalto, a da própria Dilma Rousseff.

Lembro-me bem dos refrões cantarolados pelos eleitores governistas – especialmente aqueles vistos como os mais instruídos e informados. Eles diziam votar em Dilma para “o Brasil continuar mudando”. Apontavam os dois outros principais concorrentes como “a direita” – a entidade indefinível do imaginário político brasileiro, cuja natureza adjetival serve para nomear todos os não radicais, se usado pelos partidos esquerdistas nanicos, ou todos os não petistas, quando usado pelos partidários do governo – que devoraria os direitos alcançados pela população. Para eles, o Brasil não mais conhecia a miséria, a fome, a corrupção, o desemprego, a inflação.

O que dizer? Coisas do eleitorado vítima da campanha do governo!

Eles repetiam a campanha do governo e, sem entender de teoria econômica, sabiam exatamente o que aconteceria se “a direita” voltasse ao poder. A própria Presidente-candidata fazia suas previsões certeiras: o aumento dos juros e o corte ou redução de benefícios sociais!

A Dilminha mulher, mãe, avó, exemplo sacrossanto e perfeito do mundo novo, administradora sublime, salvaria o Brasil. Seus marqueteiros, obviamente, não confessaram que se ela salvaria o Brasil, essa salvação seria do mal que ela própria criara juntamente com “o Partido” – mas, deixemos isso de lado por agora!... O que importa é que só ela impediria os males que profetizava abateriam o Brasil, caso “a direita” subisse ao Planalto mais uma vez.

Só ela poderia continuar mudando o Brasil!

Hoje, 1º de janeiro de 2015, ela oficializa a posse de seu segundo mandato. Já o inicia tendo maquiado os dados econômicos, tendo impedido a divulgação do baixo desempenho da economia nacional antes da finalização das eleições. Inicia-o, tendo esperado até após a campanha para anunciar que faria tudo aquilo que acusava “a direita” de pretender fazer, antes mesmo de sua (re)posse. E, por mais que eu seja favorável a algumas das medidas macroeconômicas já anunciadas, me enojam o cinismo, a desonestidade, a pouca vergonha da campanha à reeleição da Presidente.

Como teria dito meu avô, os eleitores têm o governo que merecem!

Feliz espetáculo de posse presidencial a todos no Brasil!

Gibson

Thursday, December 11, 2014

Autoridade hierarquizada vs. autonomia na educação formal


Poucas instituições são tão hierarquizadoras quanto as instituições de ensino oficial – sejam elas da Educação Básica ou da Educação Superior. Independentemente das perspectivas agógicas (isto é, pedagógicas, hebegógicas, adagógicas, gerentogógicas etc) adotadas pela instituição ou pelo professor, a educação formal sempre se baseia na dependência dos estudantes para com um eixo hierárquico de autoridade – autoridade esta que pode se centrar na figura do próprio professor, dos textos escolares/acadêmicos, das tradições que modelam a sociedade, etc. O fato é que, por mais que neguemos isso, a educação institucionalizada, de modo geral, faz muito pouco para ajudar os estudantes a se tornarem realmente autônomos – e isso desde a mais tenra idade.

Lembro-me de quando comecei a ensinar numa determinada escola pública nova iorquina há cerca de uma década atrás. Discutíamos um de meus temas favoritos em História dos EUA – o chamado “Movimento pelos Direitos Civis” (o segundo, de meados do século XX) –, e três de meus alunos fizeram uma reclamação formal a meus superiores por eu os estar “forçando” a ler outras coisas e a ouvir testemunhos de visitas que trouxe à sala, enquanto deixava de lado o livro didático de história. Seu argumento era que eu estava tirando deles a oportunidade de estudarem o “currículo oficial” e se prepararem para as provas aplicadas pelo Departamento de Educação do Estado (felizmente, meus superiores discordaram da opinião daqueles alunos!).

Aquele incidente me deixou extremamente perturbado por algum tempo. Perturbei-me porque a reclamação, aparentemente, partira dos próprios alunos, e não de seus pais. Mesmo sendo apenas três deles – os considerados mais brilhantes da turma –, aquilo mostrava a compreensão que tinham do que deveríamos fazer em sala: eles seriam apenas receptores dum conhecimento acabado, e eu não passava dum transmissor. Ficava me perguntando o que tínhamos (a escola) feito com aqueles adolescentes para que rejeitassem a oportunidade de chegarem às suas próprias conclusões por meio do conhecimento de outras opiniões que podiam diferir do que o livro didático lhes oferecia. Aqueles estudantes, no final das contas, só estavam seguindo o que a escola os adestrara a fazer: sigam as regras, repitam o que “aprenderam”, e tudo estará bem!

Aquele incidente, para mim, retrata bem o efeito que a mentalidade autoritária pode ter na percepção que estudantes têm de seu valor e capacidades – e isso ocorre igualmente na Educação Superior. Frequentemente, a escola/universidade parece treinar pessoas para que sejam excelentes repetidores do que já foi dito e feito, mas incapazes de criar algo novo a partir daquilo que supostamente aprenderam. Nas humanidades, por exemplo, professores se esforçam para ensinar o que, para eles, é certo; mas não esperam de seus estudantes a capacidade de apresentarem um alto nível de discordância – isto é, uma discordância que apresente argumentos bem fundamentados, de acordo com a capacidade e experiência do estudante.

Esse problema da autoridade na educação me faz lembrar da questão do 2+2. Como gosto de dizer, 2 + 2 nem sempre é igual a 4. Esse resultado sempre dependerá da escala de medida que utilizamos (se nominal, ordinal, intervalar, ou de razão). E apenas nas escalas intervalar e de razão o resultado será 4. O motivo pelo qual pensamos que 2+2 é sempre igual a 4 é porque, na escola, a maioria de nós apenas utilizou a escala de razão.

Se nem com a matemática podemos atingir um produto que sempre será inquestionavelmente correto, o que dizer das humanidades?... É justamente por isso que prefiro que os estudantes sejam capazes de chegar a conclusões próprias (mesmo que pessoalmente não concorde com elas), construindo seus argumentos por meio da análise das evidências, comparando seus argumentos com aqueles que a instituição escolar lhes impõe, do que ensiná-los a aceitar a “tradição” sem questioná-la. Quem sabe um dia as escolas e as universidades não se tornarão templos da autonomia, espaços onde discordar construtivamente seja mais importante que marcar a opção “correta” em provas padronizadas... Sonho com esse dia!

Gibson

Tuesday, December 9, 2014

Pelo direito a ofender por parte de meus ofensores: ainda sobre a noite passada


Não me compreenda mal. Dificilmente você conhecerá alguém tão diplomático quanto eu, no que tange ao respeito àqueles que são, de alguma forma, diferentes de mim. Isso se justifica por minha história pessoal: várias vezes imigrante, de pele colorada, plurilinguístico, com ideias religiosas e políticas não muito populares... ser “diplomático” no que concerne às relações sociais é não apenas uma obrigação para alguém com meu background sociocultural, é uma questão de sobrevivência (já que não me encaixo facilmente em nenhuma categoria predeterminada).

Apesar da estratégia diplomática na gestão de minhas relações sociais, entretanto, defendo o direito à livre expressão de opinião, o que inclui, necessariamente, o direito a ofender a sensibilidade alheia.

Já posso até imaginar o que você está pensando! Então, é melhor esclarecer o que quero dizer por “ofender”, antes que você espalhe por aí que estou fazendo apologia à violência. Ofender, aqui, se limita a causar desconforto, provocar raiva e desgosto, irritar, contrariar, violar o pensamento e as regras alheias.

Ofender é uma das artificialidades mais “naturais” da existência social humana. Se crianças pequenas saírem às ruas nuas, ofenderão a sensibilidade da maioria dos adultos socioeconomicamente privilegiados. Se dois rapazes se beijarem em público, ofenderão a concepção que a maioria dos homens tem sobre masculinidade, em qualquer lugar do Brasil. Se, há não muito tempo atrás, uma mãe descasada trabalhasse fora, ofenderia o que a maioria dos brasileiros esperava duma “mulher respeitável”. Grandes mestres espirituais da humanidade ofenderam as sensibilidades de seus contemporâneos. Grandes literatos e artistas da modernidade ofenderam as sensibilidades artísticas de seus antecessores. Os exemplos de ofensores se multiplicam.

Ofendemos quando dizemos ou mostramos aquilo que não querem escutar ou ver. Somos ofendidos quando escutamos ou vimos aquilo que não queremos que digam ou mostrem. Ofendemos e somos ofendidos porque nenhum ser humano é igual. A tal igualdade não passa dum mito romântico que serve como antídoto à ofensa encarnada na diversidade humana. A ofensa, assim, desempenha um papel indispensável à liberdade de expressão e à afirmação da diversidade humana. Dessa forma, ela (a ofensa) não pode servir de ofendículo à liberdade de expressão.

Não temo a ofensa à minha sensibilidade. Xingar-me com termos que se refiram à minha cor, minha orientação emotivo-sexual, minha religião, meu credo político, minha profissão, minha nacionalidade, minha língua, meu background sociocultural etc, é apenas afirmar um fato – e se não um fato, uma mentira. Logo, para mim, é apenas um exercício da vida em meio à diversidade humana. Também não temo dizer o que penso. Tenho maturidade suficiente para continuar a ofender de forma diplomática!

Gibson