Friday, January 20, 2017

Donald Trump: legítimo ou ilegítimo?


Gibson da Costa

Se você pensou que meu último texto aqui sugeria que Donald Trump fosse um Presidente ilegítimo por ter recebido menos votos populares que sua oponente, Hillary Clinton, não poderia estar mais equivocado! Não me referi à sua legitimidade eleitoral em momento algum. Não me referi às tecnicalidades do sistema. Referi-me, apenas, ao equívoco de se pensar que ele representasse os anseios do “todo” do eleitorado americano – ou, posto de outra forma, questionei sua legitimidade popular.

Mas “legítimo”, enquanto candidato eleito pelo Colégio Eleitoral, ele é! Sua vitória através desse sistema é, até agora, inegável.

Trump, na verdade, tornou-se parte duma recente tradição americana. A tradição dos Presidentes eleitos que tiveram sua legitimidade – ou, como se dizia até a década de 1990, seu “mandato” – questionada por parte dos políticos e do eleitorado. Começou com Bill Clinton, seguiu com George W. Bush, passou a Barack Obama, e agora se repete com o Presidente Twitteiro. Essa tradição de questionamento, a propósito, é muito positiva em uma democracia liberal – por mais que os partidários de algum político eleito não se alegrem muito com as críticas recebidas.

Assim, a questão não é a legitimidade eleitoral de Trump, mas, antes, a ilegitimidade moral de seu discurso. A eticidade de suas palavras – enquanto Presidente de seu Estado-nação (ou, enquanto Imperador do “Colosso”) – terá um grande peso na imagem que construirá de si e do Império Americano a partir de agora.

Se tornará Trump um Presidente legítimo para os cidadãos americanos? Ou continuará a twittar sua odiosa calhordice sem consideração pela posição que a partir de agora ocupará? De hoje em diante, é esperar e ver!


Donald Trump: O discurso maniqueísta quase-fascista venceu, mas não pelo voto popular


Gibson da Costa

O derrotado pelos votos populares, mas vencedor no Colégio Eleitoral, assume a Presidência dos Estados Unidos da América hoje. Mas será mesmo que o seu discurso salvacionista-maniqueísta – sua retórica [quase-]fascista – reflete os anseios da maioria esmagadora dos eleitores americanos?

Hillary Clinton venceu Donald Trump em quase 2.9 milhões dos votos populares – isto é, os votos dados por eleitores comuns. Trump venceu as eleições porque conseguiu um número maior de eleitores no Colégio Eleitoral. Ou seja, o sistema eleitoral maluco que ele mesmo tanto criticou durante a campanha foi o único responsável por sua vitória – mesmo considerando a alta porcentagem dos votos populares que obteve. (Ele, a propósito, não foi o primeiro a perder o voto popular, mas vencer no Colégio Eleitoral.) Se o sistema eleitoral americano fosse como o brasileiro, consistindo na contagem dos votos diretos para Presidente dados pelos próprios eleitores (1 eleitor = 1 voto), ele não teria ganho desta vez!

O ponto importante é que seu discurso salvacionista-maniqueísta, sua retórica [quase-]fascista, não foi comprada pela maioria esmagadora dos eleitores americanos – como alguns pensam. Para que você tenha uma ideia, eis a porcentagem dos votos populares recebidos pelos principais candidatos a Presidente dos E.U.A. em 2016:

Hillary Clinton (Partido Democrata) → 48,2% (65.844.954 votos)

Donald Trump (Partido Republicano) → 46,1% (62.979.879 votos)

Gary Johnson (Partido Libertário) → 3,3%

Jill Stein (Partido Verde) → 1%

O resto dos votos se distribuíram entre outros candidatos minoritários. (Esses dados, a propósito, estão atualizados até 22/12/2016.)


Que utilidade pode ter uma formação nas humanidades para o “mercado de trabalho”?


Gibson da Costa

Ouvi, numa palestra sobre “os profissionais do futuro”, comentários acerca dos supostos tipos de profissionais desejados pelo “mercado”. Um dos palestrantes dizia que os jovens deveriam estudar algo “mais útil do que as ciências humanas”, se quisessem encontrar um emprego “decente”. Ele sugeriu que estudassem Administração de Empresas! [Talvez não soubesse, a propósito, que as chamadas “ciências sociais aplicadas”, como a Administração, são parte do grande grupo das humanidades!]

Não é interessante que o tipo de pergunta que serve de título para este texto, e que serve de fundo para os comentários que ouvi naquela palestra, seja sempre feito sobre as chamadas “ciências humanas”? [As aspas, a propósito, devem ser tomadas como um indicativo de minha discordância com o uso da expressão.]

Por que uma formação em Filosofia, História, Sociologia, Geografia, Ciência Política, Relações Internacionais, Teologia ou Letras – só para citar alguns dos campos mais discriminados pelo tal “mercado de trabalho”, e algumas de minhas áreas de formação – não seria apropriada fora do mundo da educação ou da religião? Alguém com uma boa formação numa dessas áreas idealmente possui certas habilidades valiosas para qualquer empregador, dentre as quais:

  • saber pesquisar e analisar evidências;
  • conseguir perceber o que não está imediatamente aparente nos aparatos sociais;
  • compreender os processos de criação de conexões humanas;
  • articular uma argumentação persuasiva;
  • expressar ideias e soluções inovadoras;
  • possuir autonomia intelectual;
  • saber trabalhar sob pressão e dentro de um determinado prazo.

Como isso não seria útil a essa entidade quase etérea que chamam de “mercado de trabalho”? Que tipo de empregador não consideraria tais habilidades como essenciais ao seu negócio? Se os laboradores das humanidades que conhecem não correspondem a essa figura ideal listada acima, responsabilizem sua formação ou sua atitude, e não o campo que supostamente estudaram – caso contrário, começaremos a pensar que todos os que possuem formação nas áreas financeiras são plenamente ignorantes dos meandros da vida e conhecimentos humanos.


Monday, November 7, 2016

ENEM, vestibular e exclusão: algumas questões



Gibson da Costa

Todos os anos, escrevo demais sobre a I.T. (insanidade da testagem) que assola nossos sistemas de educação. Não direi mais (quase) nada novo; minha criatividade é limitada. Mas tenho algumas perguntas a fazer:

1) Não é engraçado que as provas do ENEM e de vestibulares se baseiem na premissa de que os estudantes do Ensino Médio brasileiro aprendam matemática, química, física e língua estrangeira – apenas para citar os exemplos mais óbvios – no nível exigido nesses testes, independentemente de seu local de origem, tipo de escola, etc? [Esqueçam, por um instante, a avaliação socioeconômica que também é levado em consideração quando da atribuição de notas.]

2) O que as instituições testadoras – o INEP/MEC, no caso do ENEM, ou as instituições superiores, no caso dos vestibulares – dizem aos, e acerca de, os candidatos quando os tratam como “bandidos”, revistando-os, coletando suas impressões digitais etc? Eles são estudantes ou ladrões e assassinos?

3) Ainda sobre a pergunta anterior, os que abraçam a ideologia brasilo-burguesa dirão que a segurança se justifica pelo fato de haver grupos que tentam tirar proveito das provas. Respondo com outra pergunta: Não seria melhor, então, encontrar outro caminho que não essas provas que não “provam” absolutamente nada de relevante, mas que funcionam muito bem como túnel excludente para aqueles que buscam a oportunidade de educação superior numa instituição pública?

4) Por que razão os estudantes deveriam pagar para se candidatarem ao ingresso numa instituição pública? Se a educação é um direito do cidadão, e a educação superior pública é mantida por meio dos impostos pagos por todos os cidadãos, não seria razoável esperar que os candidatos pudessem concorrer a um lugar sem pagar por isso? [Sim, conheço as justificativas quanto aos gastos administrativos referentes às provas – mas essas são impostas pelas instituições, logo, deveriam ser plenamente custeadas por elas próprias!]

5) Agora não mais uma pergunta, mas uma colocação direta: O Brasil tem uma tradição de seletividade excludente que parece se basear naquilo que chamei acima de “ideologia brasilo-burguesa” (a ideologia belicista de autodefesa característica da “burguesia” brasileira) – isto é, os grupos dominantes brasileiros sempre dificultaram o acesso à educação superior aos grupos menos favorecidos, o que historicamente tem se manifestado através dos dispositivos de testagem, e os preços cobrados para tomar parte nesses, utilizados pelas instituições educacionais. A seletividade é tamanha, e tão naturalizada, que mesmo profissionais altamente instruídos do campo educacional se manifestam contrariamente a qualquer crítica ao instituto da testagem – não percebendo que o mesmo contradiz aquilo que muitas vezes proclamam como sua visão política maior.

6) O ENEM, por exemplo, não é um instrumento de acesso equitativo à educação, principalmente porque não reflete a realidade da maioria das escolas públicas e mesmo privadas do Brasil. Ele é feito para reprovar. Quando se aplica uma prova como teste de admissão, espera-se que a mesma desempenhe um papel de filtragem. Como o ENEM serve como teste de admissão, sua missão é ser esse filtro, ou seja, é ser um agente de exclusão, de reprovação. As universidades não deveriam ser o lugar aonde vão aqueles que querem aprender? Ou deveriam ser apenas o gueto para os socioculturalmente afortunados ou, pelo menos, para os treinados pela indústria do pré-ENEM/pré-vestibular?

7) Aos que pensam que os estudantes frequentemente adentram o ensino superior despreparados, uma informação: de fato, as escolas brasileiras não preparam seus estudantes para pensarem independentemente ou escreverem com competência crítica; ela mal é capaz de ensinar os conteúdos formais (isso, infelizmente, algumas vezes também ocorre na educação superior). É aí que entra o papel da educação como instrumento de inclusão: a universidade tem de se adaptar às necessidades de seus estudantes, e não os excluir por não estarem “prontos” para ser parte do gueto intelectual. E é justamente essa exclusão que se patrocina com a tradicional testagem de admissão (ENEM ou vestibulares).

8) Eu não preciso dizer que há formas menos excludentes de oportunizar a educação superior ou profissional para os cidadãos do que o humilhante ritual da testagem que vemos nos períodos de ENEM ou vestibulares. Mas, novamente, esse não é o interesse dos grupos dominantes e daqueles que compram sua retórica. Afinal, o que seria das economias de certas instituições sem as taxas do ENEM, vestibular e concursos? O que seria do ganho dos empresários da indústria dos “Pré-”tudo e daquelas escolas que anunciam que seus alunos foram aprovados na admissão à instituição tal? O que seria daqueles professores que ensinam aulas particulares para os candidatos a esses exames?… Há inúmeros motivos para que esses exames não sejam eliminados ou repensados – incluindo a justificativa excludente de que não há vagas para todos os que gostariam de estudar em instituições públicas (ou não há bolsas para os que queiram fazê-lo em instituições privadas), e por isso mesmo deve haver um instrumento de seleção. A educação, então, trabalha como canal de exclusão, segue a trilha oposta à sua própria ideia. Quem ou o que nos salvará?

Thursday, November 3, 2016

O olhar condicionado


Ninguém – absolutamente ninguém – consegue enxergar todas as dimensões da realidade social – ou da realidade como um todo (e da Realidade, se é que me entende!). O que vemos são apenas fragmentos de fragmentos. Apropriando-me da antiga concepção platônica – embebendo-a, talvez, na releitura que Horkheimer fez de Kant –, poderíamos afirmar que todos os olhares estão conceitualmente impregnados. Quando olhamos, já o fazemos a partir de certas noções, a partir de certos “lugares. Olhamos para o mundo ao nosso redor, para as pessoas e coisas, e vemos, por exemplo, a dimensão física a partir de conceitos prévios sobre espaço, cor, tamanho, peso etc; não podemos ver “o que é em si”, mas apenas representações daquelas imagens que previamente construímos. Essa limitação é parte de ser humano. Quando pensamos que sobrepujamos todos os obstáculos à percepção do real, percebemos que nossa visão ainda está condicionada – porque ela “é” condicionada per se. O que resta é apenas fazer um esforço para ver as coisas e pessoas a partir duma outra perspectiva e, assim, enxergar aqueles detalhes que não vemos de nossa posição original.

+Gibson

Monday, October 31, 2016

Filosofia para as vítimas da antifilosofia



Gibson da Costa

A vida etérea das “redes sociais” é a vida do marketing pessoal. Estamos todos numa vitrine na qual nos vendemos por meio das aparências. É a vida das edições de imagens, que impulsionam a [auto]massagem do ego na disputa pelos “likes” da “Rede Social” de todas as redes sociais. É a vida das imagens com citações descontextualizadas e, muitas vezes, apócrifas. Agora, a disputa e o conflito giram em torno de outra forma de poder: o poder da imagem autoconstruída dum “eu-mercadoria”, projetado, desenhado, manipulado, escrito pelo gosto e preferências alheias.

A coisa triste dessa baratização da humanidade digitalizada é que facilmente nos tornamos vítimas de falsos “filósofos”. E a “Rede Social” está repleta desses. Eles oferecem uma autoajuda barata que se vende como “filosófica”; uma autoajuda que oferece a “cura” para o deficit de “leitura” de nossa cultura: criam inimigos e heróis – os inimigos, claro, são todos aqueles de quem discordam e que deles discordam; os heróis são eles próprios, cercados por acólitos que repetem os refrões bélicos típicos de fanáticos!

E eu que sempre pensara que a criticidade fosse a base da filosofia! O julgar pela aparência, em minha compreensão, se afasta muito de qualquer noção filosófica de criticidade. Ou, como bem escreveu Roger Scruton (autor com quem nem sempre concordo): “os seres racionais não somente olham para as coisas, eles olham dentro das coisas”. Assim, qualquer “filósofo” que se venda como fonte de verdade única, enquanto condena todo e qualquer autor como se fosse mentiroso e, por isso, inferior a si, pratica qualquer coisa, menos filosofia!

A filosofia é inseparável do pensamento crítico, e este – de acordo com Hannah Arendt – faz com que tornemos “o outro” presente por meio da imaginação. Essa criticidade (ou “esclarecimento”) nos faria conhecer e considerar os pontos de vista de outras pessoas. E, assim, poderíamos analisar um objeto por todos os lados, a partir de diferentes perspectivas.

Proclamar anátemas não é filosofar; é, antes, dogmatizar. E a dogmatização é um instrumento utilíssimo para o marketing pessoal daqueles que se vendem como “gurus” da “filosofia” das redes sociais. Como o que proclamam é “a verdade”, e todos os outros são mentirosos, seus discípulos os veem como “autoridade” intelectual, moral, espiritual etc. Assim, uma nova geração de fanáticos é criada. O questionamento e o filosofar são assaltados. Defensores da violência, da tortura, do autoritarismo e da hierarquia são exaltados como baluartes da “esperança” – uma esperança vazia que já decepcionou inúmeros no passado e não falhará em decepcionar os acólitos desses falsos “filósofos” do presente.

Você não tem de acreditar em nada do que escrevo. Não quero nem preciso de seguidores. Apenas convido você, que lê essas palavras, a olhar para “dentro das coisas”, a analisar qualquer coisa a partir de diferentes perspectivas. Em outras palavras, convido você a filosofar!



Referências

ARENDT, Hannah. Lições sobre a filosofia política de Kant. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.

SCRUTON, Roger. Bebo, logo existo: guia de um filósofo para o vinho. Tradução Cristina Cupertino. São Paulo: Octavo, 2011.

Tuesday, October 18, 2016

Eleições presidenciais dos E.U.A. de 2016: voto no exterior, partidos e candidatos


Gibson da Costa

Em 2011, o Departamento de Estado dos Estados Unidos estimava a população de cidadãos americanos residentes no Brasil em cerca de setenta (70) mil – nesse número estão incluídos também aqueles que possuam a cidadania brasileira (seja por terem originalmente nascido no Brasil, por serem filhos de brasileiros ou por terem passado por processo de naturalização no país) [1]. Esse número, obviamente, não é exato e não reflete o número de eleitores americanos no Brasil – isto é, de cidadãos americanos registrados como eleitores, residentes em território brasileiro –, mas, ainda assim, poderia servir de razão suficiente para que brasileiros se interessassem em saber como funciona o sistema eleitoral americano.

Diferentemente do que ocorre no Brasil, votar não é uma obrigação da cidadania americana – é, antes, um “privilégio”. Por isso, nem todos os cidadãos participam das eleições; nas eleições presidenciais de 2012, por exemplo, o número de cidadãos que votaram, comparado à população em idade eleitoral, foi de apenas 57,5%, de acordo com o relatório do Bipartisan Policy Center para as eleições daquele ano. De acordo com o mesmo relatório, o Estado de Utah, por exemplo, teve a participação de apenas 12,5% dos cidadãos em idade eleitoral [2].

Cidadãos americanos podem votar de qualquer lugar do mundo. Esse voto, contudo, não ocorre em consulados americanos, já que – diferentemente do Brasil – é proibido votar em dependências diplomáticas americanas no exterior. O voto é realizado, geralmente, pelos correios, através do envio de uma ficha eleitoral oficial que foi previamente enviada ao eleitor pelo Estado no qual o mesmo está registrado – mas também há outras formas de registro de votos vindos do exterior, a depender do Estado em questão. Isso pode fazer com que, em alguns Estados, a apuração dos votos leve dias para ser oficialmente concluída, já que devem esperar a contagem dos votos dos cidadãos no exterior (ou em outros Estados americanos). É um sistema extremamente complexo e fragmentado, quando comparado ao brasileiro!

Diferentemente do caso de brasileiros no exterior, é possível participar mesmo de eleições estaduais e/ou municipais, além das federais, estando no exterior ou em um Estado diferente do Estado de domicílio oficial. Como as leis eleitorais são estaduais, as regras mudam a depender do Estado onde o eleitor esteja originalmente registrado (isto é, do Estado no qual o eleitor tenha, de direito, “domicílio”). O Estado de domicílio, para os cidadãos que não residem mais nos E.U.A. (mesmo que nunca mais voltem ao país), é o último Estado de residência antes de deixar o território americano – são as leis desse Estado que determinam as regras às quais o eleitor deve se submeter.


Dos candidatos de 2016

Um equívoco comum fora dos Estados Unidos é pensar que haja apenas dois partidos políticos no país e, consequentemente, apenas dois candidatos à Presidência da União. A factualidade é bem diferente disso.

Há, literalmente, algumas centenas de partidos políticos nos E.U.A. A razão é simplesmente porque, diferentemente do Brasil, é possível haver partidos registrados apenas num município ou num Estado. Atualmente, há 36 partidos cujos filiados ocupam posições eletivas em algum nível (municipal, estadual ou federal). Desses, 8 possuem filiados nos executivos e legislativos estaduais: Partido Republicano, Partido Democrata, Partido Progressista [do Estado] de Vermont, Partido Libertário, Partido das Famílias Trabalhadoras, Partido Conservador do Estado de Nova York, Partido da Independência de Nova York, e os Independentes (que são políticos que concorrem sem estar filiados a um partido, mas que, são contados como um bloco quase-partidário). Os maiores partidos americanos, isto é, partidos que estão presentes em quase todos os Estados da União, são: Partido Republicano, Partido Democrata, Partido Libertário e Partido Verde. E os candidatos desses partidos são os nomes que possuiriam, em tese, alguma chance de serem escolhidos como Presidente dos Estados Unidos – já que seus nomes aparecem nas listas de votação de quase todos os Estados (os republicanos, democratas e libertários estão em todos os 50 Estados e no Distrito de Colúmbia; o Partido Verde é que não alcança todos os Estados).

Você, leitor, obviamente já conhece dois desses candidatos (e eu me esforçarei para guardar minhas opiniões sobre eles para mim mesmo!): Donald Trump, o candidato do Partido Republicano; e Hillary Clinton, a candidata do Partido Democrata. Esses são os candidatos que possuem mais recursos financeiros para gastarem os milhões e milhões de dólares que precisam para se promoverem. É por essa razão que todos os presidentes eleitos desde meados do século XIX sempre pertenceram a uma dessas duas agremiações. Candidatos de outras agremiações são chamados de “candidato de terceiro partido”. E a última vez em que um candidato de terceiro partido a Presidente conseguiu votação significativa foi em 1968, quando Ross Perot, um Independente (ou seja, não filiado a nenhum partido) alcançou 5% dos votos.

Os dois outros candidatos majoritários são Gary Johnson, do Partido Libertário, e Jill Stein, do Partido Verde. Além deles, outros candidatos presentes nas listas de votação de vários Estados são: Darrell Castle (Partido da Constituição), Evan McMullin (Independente), Gloria LaRiva (Partido do Socialismo e Libertação), Rocky de la Fuente (Partido da Reforma), Emidio Soltysik (Partido Socialista), Alyson Kennedy (Partido Socialista dos Trabalhadores), e mais cerca de 550 candidatos que ainda não abandonaram a disputa!

Então, como se vê, a redução das eleições àqueles dois candidatos que aparecem nos telejornais diários, ao redor do mundo, é um desserviço à democracia eleitoral americana, e contribui para o desconhecimento que a maioria das pessoas ao redor do mundo tem sobre a política interna dos Estados Unidos.

[1] Brazil-U.S. Bilateral Relations Fact Sheet. US Department of State. Disponível em: <https://www.state.gov/outofdate/bgn/brazil/191355.htm>. Acesso em: 11 out. 2016.
[2] Bipartisan Policy Center. 2012 Voter Turnout Full Report. Disponível em: <http://cdn.bipartisanpolicy.org/wp-content/uploads/sites/default/files/2012%20Voter%20Turnout%20Full%20Report.pdf>. Acesso em: 11 out. 2016.


Wednesday, August 17, 2016

Manifesto opaco dum não-conformista apátrida


Gibson da Costa

As duas primeiras décadas do século XXI correm o risco de futuramente serem conhecidas, ao menos em algumas partes do mundo, como a “Era da Estupidez em Massa”. Sim, porque a tecnologia sobre a qual nosso dia a dia está atualmente assentado amplia, assustadoramente, o barulho da ignorância coletiva acerca da humanidade – aquilo que caracteriza-nos como seres pensantes.

Em nossos dias, os ignorantes e os doutos encontram canais relativamente livres e gratuitos para gritarem insanidades e se sujarem com a imoralidade apologética – política, religiosa, cultural ou qualquer que seja. Assim, torna-se mais fácil, para uma geração estúpida e irascível como a nossa, a massificação do não-saber voluntário, da apologética cartilhesca, da má vontade para com os demais, do preconceito pelo preconceito.

Se anteriormente se estampavam nas publicações impressas que se liam por preço ou empréstimo, hoje se encontram nos perfis virtuais de usuários semialfabetizados ou doutores. Se antes, para expor preleções intelectuais, o orador submetia-se à liturgia acadêmica ou profissional, hoje necessita apenas criar um canal em sítio de transmissões audiovisuais.

Democrático, é verdade. Mas também disseminador da estupidez, da ignorância e do preconceito.

Hoje, mais do que nunca, a violência, o preconceito, a intolerância, a insensatez e a desonestidade se revestem de roupagens intelectuais e se vendem facilmente como soluções finais para problemas semi-existentes. Mais do que nunca, ouvem-se vozes carregadas de crueldade, desonestidade e estupidez.

Mas essas vozes não são as únicas que falam. E, definitivamente, não devem ser as vozes às quais dar atenção.

Onde estão as vozes proclamadoras da paz e da concórdia? Onde estão as anunciadoras da boa vontade e da apreciação? Onde estão as vozes reconciliadoras e confortadoras? E onde estará o silêncio necessário para a reflexão – o freio que controla impulsos insanos para respostas irrefletidas?

Que vozes escolheremos ouvir nesta segunda metade da segunda década do século XXI? Escolheremos as vozes proclamadoras do ódio, do rancor, da discórdia? Escolheremos as falantes da linguagem ensurdecedora do mal? Ou ousaremos nos afirmar como humanos – como entes pensantes, racionais, culturais, espiritualizados? Mataremos o que o século XX não conseguiu extinguir por completo ou nos ergueremos contra a anti-humanidade?

A estupidez coletiva do século XXI, exposta nas rotas da selva eletrônica pelos profetas e filósofos do não-saber, é a não-humanidade quase-materializada. E ela deve ser rejeitada com todo o vigor de nosso espírito humano, e com toda a beleza de nossa capacidade racional.

Não à estupidez coletiva!


Sunday, August 7, 2016

Ainda sobre o "Escola Sem Partido": resposta a uma colega professora


Gibson da Costa


Cara Sandra,

Como você já pode imaginar, discordo frontalmente de sua opinião. E permita-me expor minhas razões.

Projetos de Lei como esse do ESP não representam uma “solução” para a educação brasileira. Em primeiro lugar, o uso que você faz do termo “solução” implica que haja um “problema”, mas você não identificou a que problema se referia. Em segundo lugar, mesmo que eu acreditasse que houvesse um problema “fundamental” com a educação, lei alguma poderia dar conta de todos os problemas que possam haver numa determinada área da vida social, como a educação.

Trata-se, na verdade, duma questão de visões distintas de mundo e, mais especificamente, do que significa ser um humano. Por exemplo, ao tratar professores como “manipuladores”, o discurso do ESP explicita sua visão dos estudantes: seres passivos, não reflexivos, que são “manipuláveis” – ou seja, não têm nem um pensamento próprio, nem responsabilidade para com suas próprias escolhas. Assim, para mim, o ESP só reforça um problema real que existe na sociedade brasileira como um todo e que, obviamente, se reproduz na escola. O nome desse problema é: AUTORITARISMO.

Voltemos ao art. 2º, inciso III, do Projeto de Lei nº 193/2016 do Senador Magno Malta – ou dos projetos assinados, com o mesmo texto, por diferentes vereadores, deputados estaduais e federais. Nele, se estabelece o princípio da “liberdade de aprender e de ensinar”. Agora, compare isso ao art. 3º, inciso II, da LDB (Lei nº 9394/1996), que, por sua vez, estabelece como princípio a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”. A diferença, que é explícita, chega a representar uma “violência simbólica”: a liberdade proposta pelo ESP é apenas a “liberdade” de receber e de transmitir “conteúdos” (na realidade, poderíamos até mesmo discutir as noções de “liberdade” e de “conteúdo” que se escondem por trás dos projetos de lei e dos discursos dos partidários do ESP).

O que o ESP propõe é a “desintelectualização” do ensino e da aprendizagem – e, consequentemente, sua desumanização. Sua visão não é de um professor pesquisador, autor, pensador. O professor do ESP é um mero transmissor de “conteúdos”. Ele recebe uma informação pronta e acabada de alguém que esteja numa posição hierárquica superior – os autores de livros didáticos (livros esses utopicamente higienizados de traços ideológicos com os quais os ESPistas discordam) ou sei lá mais quem! – e os transmite aos seus alunos.

Os alunos, por sua vez, são apenas receptores nessa cadeia transmissora de informações empacotadas. Eles são meros produtos duma tradição. Devem conhecer e seguir as regras, as normas, os ditos, o “certo”. Por isso, para os adeptos e defensores dessa visão diminuta da humanidade, ensinar e aprender limita-se a transmitir e memorizar fatos – sem crítica, sem questionamentos, sem provocações. Se pudessem, se desfariam de todos os professores e fabricariam o “mestre novo”: a máquina que conhece seu lugar (como retransmissor duma tradição construída para silenciar o lugar do ser humano) e sabe colocar o estudante em seu próprio lugar (como humano submisso à hierarquia dos que sabem mais do que ele e do que seus professores – a hierarquia autora do próprio ESP).

Assim, a deseducação proposta pelo ESP é aquela levada a cabo por um professor que não provoca. O aluno que o ESP quer produzir é aquele que não discorda (na verdade, só discorda se o professor for uma dessas criaturas etéreas que os apoiadores do projeto chamam de “esquerdista” ou “comunista” – e que seria todo aquele que discorda da visão de mundo proposta pelo ESP). Tudo segue o rito estabelecido na cartilha da hierarquia autoritária: uns falam, outros ouvem; uns mandam, outros obedecem!

Essa é a “solução” proposta pela ideologia do Escola Sem Partido! A “solução final” para a educação brasileira!

Você se refere a um “filósofo” que apoia o movimento. Como um “filósofo” pode apoiar o não questionamento? Ninguém que apoie a criminalização da expressão de ideias e conceitos pode ser tomado como “filósofo”. É, no máximo, uma fraude com um bom trabalho de marketing! Ele pode ser aplaudido por sua audiência, admiradora dos termos sofisticados e das assombrosas referências que faz aos “comunistas” (termo genérico aplicado a qualquer um que discorde de sua visão de mundo) ou, quando tenta ser mais elegante, aos “socialistas fabianos”, mas o que é sua mensagem além de um apelo ao autoritarismo ideológico?!

A propósito, uma maneira de selecionar o que escutamos – o que, em si, é uma atividade intelectual – é justamente sabermos quem nos fala. Quais são as ideias que essa pessoa defende? O que essa pessoa faz? Como ela ganha a vida? Por que ela diz o que diz? Quem apoia o que essa pessoa faz? Quem ela mesma apoia?

Por exemplo, não é curioso que os autores e defensores desses projetos de lei patrocinados pelo ESP – incluindo o citado “filósofo” – não incluam professores? Como essas leis se dirigem a professores da Educação Básica, seria razoável esperar que entre seus autores e apoiadores houvesse professores da Educação Básica (as pessoas que têm formação, conhecem a vida escolar, a atuam na sala de aula regular). Mas, não há. E o “filósofo” que você cita não é professor do ensino regular – nem no Brasil, nem onde vive!

Posso deixar claro o que penso que você deve saber a meu respeito:

Sou um professor. Ensino na Educação Básica e Superior. Não estou ligado a políticos. Não trabalho para partidos políticos ou candidatos políticos. Mas, obviamente, abraço um conjunto de ideias filosóficas que moldam minha visão política.

Acredito na liberdade de opinião e de expressão de opinião, e a defendo em minha prática. Minhas crenças filosóficas, religiosas e políticas, e minhas perspectivas teóricas, não são impostas a meus alunos e alunas como a única opção aceitável; mas elas, obviamente, estão presentes em tudo o que faço. E isso ocorre porque sou um ser humano, e não uma máquina. Por mais que queira e me esforce para manter um ambiente de abertura na sala de aula, ainda sou um indivíduo – ou, se preferir, um “sujeito histórico” –, o que implica que estou condicionado pelo que conheço e experiencio do e no mundo. E é exatamente por isso que considero a exigência duma suposta “neutralidade” como uma aberração irracional.

Nunca neguei que, de fato, houvesse professores que faziam apologias partidárias em sala de aula. Há professores que o fazem. Há professores que impõem sua compreensão filosófica como a única aceitável, correta, certa. Mas esses professores são uma minoria. E os que o fazem, são partidários das mais diferentes visões políticas; coletivamente, sofrem possivelmente de uma formação deficitária, e, individualmente, de um deficit ético. O problema na formação desses professores é o mesmo presente nas propostas do ESP: a visão da educação como um instituto autoritário, no qual o professor é um (re)transmissor e o estudante é um receptor.

Contudo, reconhecer que haja professores que “imponham” uma única visão da realidade social a seus alunos não é equivalente a dizer que esses estudantes sejam “manipulados”. Eles, em sua maioria, não o são. E não o são porque pessoas psicologicamente saudáveis não são “manipuláveis” como marionetes. Os estudantes não chegam à escola como tábulas rasas. Eles conseguem compreender o mundo ao seu redor. A eles podem faltar conceitos sofisticados e um conhecimento da “gramática teórica”, mas, ainda assim, são capazes de legitimar ou deslegitimar discursos. Negar isso, dizendo que os estudantes são “manipulados” pelos professores, é negar sua humanidade e sua capacidade de autonomia.

Então, se quer uma sugestão minha para lidar com as questões levantadas pelo ESP, talvez devêssemos começar por fazer um pacto – os professores, os pais, a escola, as autoridades educacionais, o ESP, o Poder Legislativo etc – pela autonomia do estudante. Os estudantes não são ratos de laboratório; são seres humanos e, assim, podem entender muito mais do que os legisladores e seus apoiadores conseguem imaginar. E nós, professores, já sabemos disso há muito tempo. Já está mais do que na hora de pôr o que sabemos sobre aprendizagem, sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes em nossa própria prática. Sejamos plenamente honestos com nossos estudantes: ESP, confesse aos jovens estudantes suas intenções autoritárias! Professores “manipuladores”, confessem aos seus alunos de onde saíram suas visões de mundo!... Verdadeiros professores: façamos nosso trabalho – é um direito de nossos estudantes!

Wednesday, July 27, 2016

Quem nos salvará do Império da Ignorância?!


A receita nunca falha, independentemente da época, independentemente da cultura, independentemente da língua, independentemente do lugar. Adicione hipocrisia a uma forma de autoritarismo, ao iletramento religioso e à ignorância histórica: o resultado é sempre o discurso da vitimização com base no medo, regendo a retórica do ódio e intolerância com vistas a uma idealizada retomada dum “estado” que nunca existiu.

A Igreja latina usou essa receita contra a Igreja grega e as Igrejas orientais ao longo de sua história. A Igreja grega e as Igrejas orientais usaram essa mesma receita contra a Igreja latina e umas contra as outras. Os católicos romanos usaram essa receita contra os diferentes grupos protestantes no início da Reforma. Diferentes grupos protestantes usaram essa mesma receita contra os católicos e uns contra os outros, posteriormente. Os muçulmanos sunitas usaram a receita contra os xiitas e outros grupos. Os xiitas e outros grupos usaram-na contra os sunitas. Cristãos usaram a velha receita contra judeus e muçulmanos. Judeus e muçulmanos usaram-na contra cristãos. Judeus das mais diferentes tradições usaram-na uns contra os outros. E a história continua.

Até que uma legião de hipócritas, autoritários, iletrados em religião e ignorantes em história religiosa conseguem meios gratuitos para manifestarem sua ignorância aos quatro ventos... e voilà: pode-se ler as manifestações mais assustadoramente vergonhosas nas “redes sociais” eletrônicas!

Abaixo, minha resposta a algumas dessas manifestações:

Não, “cristãos” não estão sendo “perseguidos” por “muçulmanos” no Ocidente. Um sacerdote francês foi brutalmente morto por assassinos que agiram – em parte, por conta de sua hipocrisia, seu autoritarismo, seu iletramento religioso e sua ignorância histórica –, usando sua professa religião como desculpa.

Não, “muçulmanos” não estão sendo “perseguidos” por “cristãos” no Ocidente. Os cristãos que manifestam intolerância aos muçulmanos – usando sua professa religião como desculpa –, o fazem, em parte, por conta de sua hipocrisia, seu autoritarismo, seu iletramento religioso e sua ignorância histórica.

Esses professos muçulmanos e cristãos não representam todos os demais muçulmanos e cristãos. E nenhum deles representa, em princípio, uma ameaça à “harmonia original” de uma tradição ou outra. Até porque nunca houve uma “harmonia original”!

Um pouco de estudo histórico mostraria, por exemplo, que os governos “cristãos” do passado agiram por muito mais tempo de forma intolerante e sanguinária contra judeus, muçulmanos e quaisquer outras minorias do que os governos “muçulmanos”. E que os mesmos governos “muçulmanos” do passado demonstraram uma tolerância e proteção a judeus e cristãos incompreensível aos olhos dos cristãos.

Enquanto os governos “cristãos” europeus torturavam, matavam e expulsavam judeus de seus territórios, os “califados muçulmanos” permitiram que uma influente comunidade judaica florescesse em seu meio. E isso ao longo de séculos!

As coisas só mudaram quando a Europa foi laicizada, secularizada. Interessante, não?! Foi justamente o afastamento – mesmo que apenas formal – da religião do poder do Estado que fez com que os crentes/praticantes de outras religiões não fossem mais assassinados ou punidos por conta de sua fé.

Nos países de maioria muçulmana onde se desenvolvem ideias “islamistas jihadistas” – a propósito, “islã” é o nome da religião, “movimento islamista” (ou “islamita”) é um conjunto de movimentos fundamentados numa ideologia política frequentemente chamada de “Islã político”, e “jihadismo” é uma ideologia revolucionária islamista frequentemente belicista, nenhum desses termos é necessariamente sinônimo um do outro –, ideias abraçadas por muitos dos “revolucionários” tornados terroristas, há exatamente o mesmo tipo de reacionarismo contra a secularização e a mesma intolerância a outras tradições religiosas divulgada por grupos cristãos ditos (equivocadamente) “conservadores” no Ocidente. As maiores vítimas desses grupos islamistas jihadistas não são os cristãos, são, na verdade, outros muçulmanos – que são a maioria – que não pensam nem agem como eles.

Atribuir ao Islã e a todos os muçulmanos os crimes praticados por terroristas jihadistas é como imputar os crimes dos terroristas do Exército Republicano Irlandês ao Catolicismo Romano e a todos os católicos do mundo. Só um autoritário, iletrado religioso e ignorante da história o faria.

Quem, afinal, nos salvará do Império da Ignorância?!

Gibson da Costa