Thursday, December 11, 2014

Autoridade hierarquizada vs. autonomia na educação formal


Poucas instituições são tão hierarquizadoras quanto as instituições de ensino oficial – sejam elas da Educação Básica ou da Educação Superior. Independentemente das perspectivas agógicas (isto é, pedagógicas, hebegógicas, adagógicas, gerentogógicas etc) adotadas pela instituição ou pelo professor, a educação formal sempre se baseia na dependência dos estudantes para com um eixo hierárquico de autoridade – autoridade esta que pode se centrar na figura do próprio professor, dos textos escolares/acadêmicos, das tradições que modelam a sociedade, etc. O fato é que, por mais que neguemos isso, a educação institucionalizada, de modo geral, faz muito pouco para ajudar os estudantes a se tornarem realmente autônomos – e isso desde a mais tenra idade.

Lembro-me de quando comecei a ensinar numa determinada escola pública nova iorquina há cerca de uma década atrás. Discutíamos um de meus temas favoritos em História dos EUA – o chamado “Movimento pelos Direitos Civis” (o segundo, de meados do século XX) –, e três de meus alunos fizeram uma reclamação formal a meus superiores por eu os estar “forçando” a ler outras coisas e a ouvir testemunhos de visitas que trouxe à sala, enquanto deixava de lado o livro didático de história. Seu argumento era que eu estava tirando deles a oportunidade de estudarem o “currículo oficial” e se prepararem para as provas aplicadas pelo Departamento de Educação do Estado (felizmente, meus superiores discordaram da opinião daqueles alunos!).

Aquele incidente me deixou extremamente perturbado por algum tempo. Perturbei-me porque a reclamação, aparentemente, partira dos próprios alunos, e não de seus pais. Mesmo sendo apenas três deles – os considerados mais brilhantes da turma –, aquilo mostrava a compreensão que tinham do que deveríamos fazer em sala: eles seriam apenas receptores dum conhecimento acabado, e eu não passava dum transmissor. Ficava me perguntando o que tínhamos (a escola) feito com aqueles adolescentes para que rejeitassem a oportunidade de chegarem às suas próprias conclusões por meio do conhecimento de outras opiniões que podiam diferir do que o livro didático lhes oferecia. Aqueles estudantes, no final das contas, só estavam seguindo o que a escola os adestrara a fazer: sigam as regras, repitam o que “aprenderam”, e tudo estará bem!

Aquele incidente, para mim, retrata bem o efeito que a mentalidade autoritária pode ter na percepção que estudantes têm de seu valor e capacidades – e isso ocorre igualmente na Educação Superior. Frequentemente, a escola/universidade parece treinar pessoas para que sejam excelentes repetidores do que já foi dito e feito, mas incapazes de criar algo novo a partir daquilo que supostamente aprenderam. Nas humanidades, por exemplo, professores se esforçam para ensinar o que, para eles, é certo; mas não esperam de seus estudantes a capacidade de apresentarem um alto nível de discordância – isto é, uma discordância que apresente argumentos bem fundamentados, de acordo com a capacidade e experiência do estudante.

Esse problema da autoridade na educação me faz lembrar da questão do 2+2. Como gosto de dizer, 2 + 2 nem sempre é igual a 4. Esse resultado sempre dependerá da escala de medida que utilizamos (se nominal, ordinal, intervalar, ou de razão). E apenas nas escalas intervalar e de razão o resultado será 4. O motivo pelo qual pensamos que 2+2 é sempre igual a 4 é porque, na escola, a maioria de nós apenas utilizou a escala de razão.

Se nem com a matemática podemos atingir um produto que sempre será inquestionavelmente correto, o que dizer das humanidades?... É justamente por isso que prefiro que os estudantes sejam capazes de chegar a conclusões próprias (mesmo que pessoalmente não concorde com elas), construindo seus argumentos por meio da análise das evidências, comparando seus argumentos com aqueles que a instituição escolar lhes impõe, do que ensiná-los a aceitar a “tradição” sem questioná-la. Quem sabe um dia as escolas e as universidades não se tornarão templos da autonomia, espaços onde discordar construtivamente seja mais importante que marcar a opção “correta” em provas padronizadas... Sonho com esse dia!

Gibson

Tuesday, December 9, 2014

Pelo direito a ofender por parte de meus ofensores: ainda sobre a noite passada


Não me compreenda mal. Dificilmente você conhecerá alguém tão diplomático quanto eu, no que tange ao respeito àqueles que são, de alguma forma, diferentes de mim. Isso se justifica por minha história pessoal: várias vezes imigrante, de pele colorada, plurilinguístico, com ideias religiosas e políticas não muito populares... ser “diplomático” no que concerne às relações sociais é não apenas uma obrigação para alguém com meu background sociocultural, é uma questão de sobrevivência (já que não me encaixo facilmente em nenhuma categoria predeterminada).

Apesar da estratégia diplomática na gestão de minhas relações sociais, entretanto, defendo o direito à livre expressão de opinião, o que inclui, necessariamente, o direito a ofender a sensibilidade alheia.

Já posso até imaginar o que você está pensando! Então, é melhor esclarecer o que quero dizer por “ofender”, antes que você espalhe por aí que estou fazendo apologia à violência. Ofender, aqui, se limita a causar desconforto, provocar raiva e desgosto, irritar, contrariar, violar o pensamento e as regras alheias.

Ofender é uma das artificialidades mais “naturais” da existência social humana. Se crianças pequenas saírem às ruas nuas, ofenderão a sensibilidade da maioria dos adultos socioeconomicamente privilegiados. Se dois rapazes se beijarem em público, ofenderão a concepção que a maioria dos homens tem sobre masculinidade, em qualquer lugar do Brasil. Se, há não muito tempo atrás, uma mãe descasada trabalhasse fora, ofenderia o que a maioria dos brasileiros esperava duma “mulher respeitável”. Grandes mestres espirituais da humanidade ofenderam as sensibilidades de seus contemporâneos. Grandes literatos e artistas da modernidade ofenderam as sensibilidades artísticas de seus antecessores. Os exemplos de ofensores se multiplicam.

Ofendemos quando dizemos ou mostramos aquilo que não querem escutar ou ver. Somos ofendidos quando escutamos ou vimos aquilo que não queremos que digam ou mostrem. Ofendemos e somos ofendidos porque nenhum ser humano é igual. A tal igualdade não passa dum mito romântico que serve como antídoto à ofensa encarnada na diversidade humana. A ofensa, assim, desempenha um papel indispensável à liberdade de expressão e à afirmação da diversidade humana. Dessa forma, ela (a ofensa) não pode servir de ofendículo à liberdade de expressão.

Não temo a ofensa à minha sensibilidade. Xingar-me com termos que se refiram à minha cor, minha orientação emotivo-sexual, minha religião, meu credo político, minha profissão, minha nacionalidade, minha língua, meu background sociocultural etc, é apenas afirmar um fato – e se não um fato, uma mentira. Logo, para mim, é apenas um exercício da vida em meio à diversidade humana. Também não temo dizer o que penso. Tenho maturidade suficiente para continuar a ofender de forma diplomática!

Gibson

Thursday, October 30, 2014

O Papa é pop?... A Igreja, as Ciências e os noticiários


Os noticiários anunciaram o que parecia bombástico. O líder da Igreja Católica Apostólica Romana, segundo as manchetes, endorsava as teorias da evolução e do Big Bang. Parecia que, dessa vez, o Papa tinha realmente se tornado “pop”!

Acompanhando todo o rebuliço causado pelas manchetes ao redor do mundo, tinha-se a impressão que a Igreja Romana, de uma hora para outra, abandonava a fé e rendia-se à ciência. Deus dava lugar – ao menos nas reações de fiéis e daqueles nem tão ligados assim à fé católica – aos experimentos de laboratório: era como se lêssemos uma nova versão de “Anjos e Demônios”, de Dan Brown.

Bem, nem tanto.

Na verdade, o discurso do Papa Francisco na sessão plenária da Pontifícia Academia de Ciências, em 27 de outubro, no Vaticano, foi um pronunciamento em linha com aquilo que a própria Igreja Romana tem ensinado sobre a Criação. E, para ser exato, está longe de ser um endorso daquilo que a maioria dos cientistas ensina sobre as duas teorias (a Evolução e o Big Bang). Nada que justifique o sentimento de escândalo sobre o qual alguns amigos católicos comentaram comigo esses últimos dias.

Vale a pena ler alguns trechos do pronunciamento do Papa, que se encontra aqui, em francês, ou aqui, em italiano, para observar aquilo que as manchetes deixaram de fora quando retrataram que o Papa agora é “pop” (tradução e ênfases são minhas):

[...] Quando lemos, no Gênesis, o relato da criação, corremos o risco de imaginar que Deus fosse um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim. […] Ele criou os seres e permitiu-lhes que se desenvolvessem de acordo com as leis internas que deu a cada um […] O início do mundo não é obra do caos, que deve a um outro a sua origem, mas deriva-se diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje é visto como a origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas a exige. A evolução na natureza não contradiz a noção da Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.[…]”

O resto do pronunciamento é ainda mais interessante. Não por trazer qualquer coisa nova, em termos de doutrina, mas por fazer uso duma linguagem que, aparentemente, não é muito comum à percepção da maioria daqueles que não compreendem a visão que o Catolicismo Romano tem de algumas posições científicas. Seu pronunciamento, por exemplo, fala sobre a liberdade humana – liberdade que tem uma ligação com aquelas “leis internas” que permitiriam aos seres seu desenvolvimento, segundo o Papa – e a maneira como a utilizamos para destruir a Criação, nos colocando no lugar do Criador.

Assim, faltou a todas aquelas notícias, e a todo o rebuliço nas redes sociais, tratar sobre o ponto principal do pronunciamento papal, a responsabilidade humana para com a Criação – ou natureza, se preferir. Tenho certeza que, com isso, qualquer um pode concordar!

Gibson

Sunday, October 26, 2014

Aquela gente, da ex-contracultura, inimiga da liberdade


Cada vez mais, me aborreço com os intelectualóides que constituem a militância esquerdista brasileira. Essa gente “ilustrada” que domina não apenas as universidades, sindicatos e redações, mas, principalmente, os cargos eletivos e o funcionalismo público brasileiro. Essa gente que se vangloria de haver supostamente defendido, e de ainda defender, a “democracia” e a “liberdade de expressão”, juntamente com os “filhinhos de papai” das famílias privilegiadas que encontraram na onda de “terrorismo da nova esquerda” – para utilizar a classificação de David Rapoport – sua raison d'être, mas que não pensa duas vezes em apagar a democracia e a liberdade de expressão se essas se tornarem um obstáculo ao seu projeto de poder.

É interessante como essa gente – mas também a direita ignorante e atrasada – retrógrada (porque se prende a uma mentalidade da Guerra Fria), com sua máscara de cool people, consegue sempre encontrar um culpado externo para os problemas nacionais, e consegue sempre responsabilizar a imprensa pelos crimes políticos que eles (isto é, “essa gente”) mesmos cometeram. Para o credo desses profetas do Iluminismo do “eles vs. nós” a imprensa representa os “golpistas”, e os políticos esquerdistas criminosos as “vítimas” dum complô. Sua reza messianizante chega a ser irritantemente ridícula.

Eles, provavelmente, vencerão as eleições hoje. Mas, ao mesmo tempo, sairão como os grandes perdedores da mesma. Perderão porque dividiram forçosamente o país. Perderão porque se tornaram o símbolo da incoerência. Perderão porque aqueles que se esforçam para ler as entrelinhas verão sua gigantesca hipocrisia. Perderão porque abandonaram sua integridade intelectual em favor do corporativismo partidário.

Essa gente perdeu sua autoridade moral – se é que algum dia realmente a teve– quando não deixou claro que seu voto no governo do dia era um voto crítico. Em vez de, mesmo votando no PT, condenar publicamente a corrupção, as irregularidades, e “alguns” dos erros administrativos do governo petista – contra o qual disparoutantas greves nos últimos dois anos, em favor de si mesma –, escolheuo corporativismo partidário. Em vez de realizar uma defesa crítica à liberdade de imprensa, escolhe não apenas apoiar projetos que restringem tal liberdade, mas criar o ambiente para que a imprensa seja atacada nas ruas e nas sedes de editoras.

Essa é a pseudo “democracia”, e a pseudo “liberdade” – que, aparentemente, não passa de eleitoral – da elite esquerdista brasileira. A “democracia” e a “liberdade” que só importa se elafor privilegiadanas urnas (e nas contas bancárias)! A “democracia” que – escondida pela máscara do “cool people”, distribuidor de renda e defensor das “minorias” – esconde-se de seu reflexo no espelho. Essa esquerda elitista já deixou de ser a “contracultura” há muito. Só não percebe isso quem não abre os olhos!

Quanto a mim, continuo a acreditar na liberdade. Melhor um país onde ideias opostas podem se contradizer livremente que um país onde animais vestidos de militantes políticos incendeiam veículos de rede de televisão, agridem jornalistas, e tentam invadir redações. Este país já viu esse tipo de cenas antes, e sabe muito bem onde isso acaba. Esses agressores – vistos como heróis pela esquerda elitista e atiçados pela ameaça deselegante da Presidente da República (com a sua “lhes daremos uma resposta nas urnas”) – simbolizam o quão distante estamos duma cultura democrática. Eles dão, na verdade, um tiro nospés da elite esquerdista, por expô-la como inimiga da liberdade!

Gibson

Thursday, October 23, 2014

Brevíssimos comentários sobre a “infantilidade” dos soldados partidários nas redes sociais


1) Começo por aqueles que declaram apoiar Aécio Neves:

  • Não é interessante como quando as “pesquisas” de certos institutos indicavam a vantagem de seu candidato, eles cantavam vitória, engrandecendo as previsões, mas quando apontam Dilma Rousseff como vencedora, os mesmos institutos são acusados de fraudulentos? Alguém racionalmente coerente consegue explicar isso?... Sinto vergonha por essas pessoas!

  • Uma das mais importantes bandeiras historicamente defendidas pelo PSDB, e defendida em vários momentos por Aécio Neves, tem sido a proteção à liberdade de expressão – a liberdade da imprensa, por exemplo. É ridículo e revoltante ver um chamado feito por alguns, nas redes sociais, a se boicotar artistas que apoiam a candidatura de Dilma Rousseff. Depois reclamam das piadas feitas pelos ativistas petistas sobre os supostos eleitores de Aécio!... Democracia e liberdade, para mim, implicam, dentre tantas outras coisas, na defesa do direito à opinião discordante, na defesa da liberdade daqueles que acreditam em coisas completamente diferentes das quais acredito dizerem o que querem. Alguém racionalmente coerente consegue explicar esse comportamento ridiculamente incoerente?... Novamente, sinto vergonha por essas pessoas!

2) Sobre os declarados eleitores de Dilma Rousseff:

  • Esses, por sua vez, acreditam ser a encarnação da sabedoria e conseguem utilizar argumentos tão rasos que sinto vergonha por eles – especialmente aqueles mais instruídos que se utilizam das mesmas artimanhas infantilizadas. Pense naquelas acusações contra o candidato do PSDB, especialmente as que o retratam como um “playboy filhinho de papai”. Se isso fosse suficiente para desqualificar alguém politicamente, eu usaria a acusação contra o passado da presidente-candidata como guerrilheira – que, claro, conseguiram transformar em imagem duma “lutadora pela democracia”... e eu me recuso a entrar nesse tipo de discussão com os crentes dogmáticos nesses “libertadores” nacionais (é mais fácil discutir teologia com cristãos fundamentalistas do Kentucky!). Essa gente supostamente instruída ignora, em suas argumentações nas redes sociais, os processos de construção de mitos e deixam de analisar seus próprios “discursos”. É algo triste de ver!

  • É inacreditável como pessoas supostamente tão ilustradas prosseguem com seus argumentos ignorantes sobre o “fim de direitos”!... Pelo amor da racionalidade, estudem um pouco como funcionam as leis deste país! Direitos constitucionais e leis promulgadas pelo Congresso não podem ser anuladas por um Presidente da República – a não ser que estejamos numa ditadura novamente, e ninguém pode acusar o PSDB ou seu candidato de estarem tentando estabelecer uma, seja ela dos capitalistas ou do proletariado (diferentemente dos antigos “libertadores”, que se tornaram o símbolo do establishment político de hoje)!
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Enfim, a estupidez argumentativa que esses ativistas – de todas as facções, cores, partidos, crenças, status socioeconômicos e formação educacional – têm demonstrado é vergonhosa. Pena que eles não percebem isso! [Isso para não citar a vergonhosa verborragia do ex-presidente Lula, com suas inadequadas e irresponsáveis comparações!]

Gibson

Um minuto para o sarcasmo...

A receita para "continuar mudando", segundo alguns?... Não questione! Só siga a velha e apropriadíssima receita ministerial: "Relaxa e goza"!
 
 
 

Tuesday, October 21, 2014

Eleições e democracia: todos perdemos alguma coisa!


Desde o ano passado tenho dito a amigos que não acredito que a Presidente Dilma Rousseff perca as eleições. Ainda acredito nisso piamente, mesmo sendo eleitor da ridícula “oposição” (como já disse aqui antes, eles não merecem essa alcunha).

Na verdade, fui surpreendido por um segundo turno – o questionamento dos eleitores e eleitoras brasileiros me surpreendeu de forma positiva. Os defensores mais combativos do governo – isto é, aqueles que se perdem num oceano de incoerências discursivas e fanatismo partidário (da mesma forma como os mais combativos defensores do candidato Aécio Neves ou de qualquer outro candidato político) – se ofendem quando digo que foi extremamente positivo que Dilma perdesse no primeiro turno (sim, porque ela, de fato, perdeu, independentemente de conquistar o primeiro lugar; não se trata duma questão aritmética, mas, sim, simbólica). O invencível partido messiânico deparou-se com a dúvida do populacho crente, e viu-se obrigado a disputar o assento republicano, aos “tapas”, com um "pregador" menos potente. E isso poderia ser extremamente positivo para os messiânicos (PT e os “companheiros”), para os seguidores do novo pregador (PSDB e os “amarelos”) e para seus respectivos eleitores – claro, isso se todos eles fizerem seu dever de casa.

Como ainda penso que a Presidente se reelegerá – desejo que não, mas vivo com meus pés no chão, e não na Lua! –, ela deveria aprender com a lição que recebeu dos eleitores. Ninguém é invencível, independentemente de quão popular tenha se tornado. Na verdade, ninguém é unanimemente popular – que diga minha carreira pedagógica. Não custaria muito ela repensar um pouco suas estratégias políticas em seu provável segundo mandato.

Quanto à “oposição” – ainda acho que deveríamos pensar numa alcunha melhor para eles, já que só conseguiram se opor a seus próprios eleitores até agora –, já está mais do que na hora de se decidirem ao que se opõem, afinal de contas. O consenso político social liberal brasileiro torna meio “sem pé nem cabeça” a guerra entre PT e PSDB. Na verdade, ambos os partidos são praticamente a mesma coisa, quando se leva em consideração sua agenda mais ampla. Talvez seja mais que hora de o PSDB se refundar – ou o contrário, isto é, o PT se re-refundar, tornando-se mais claramente distinto do PSDB. As diferenças entre os dois, especialmente no campo econômico, é crendice que serve apenas para ser gritado por militantes cegos em tempos de campanhas eleitorais – só não vê isso quem não quer!

Não, não sou o perfeito idiota que acredita que o PSDB, e seu candidato, represente tudo o que há de limpo e virtuoso na política brasileira – o chamado “quarto poder” da república mostra uma realidade bem diferente disso (mais um ponto em comum com os “messiânicos”... quero dizer, com o PT)!

Mas há algumas poucas diferenças entre os dois grupos. E, na verdade, são justamente essas diferenças que me fazem manter minha adesão ao PSDB e me opor ao PT e à sua candidata. A diferença mais importante está nas compreensões distintas entre os dois partidos a respeito das liberdades democráticas – coisa que desde o primeiro mandato de Lula tem sofrido ameaças: refiro-me à liberdade da imprensa, por exemplo, algo que mantém uma posição dogmática em minha visão de mundo. Ademais, há ainda o mais recente movimento semi-autoritário da Presidente em tomar decisões que apenas o Legislativo poderia em detrimento do próprio Legislativo (classifiquem como quiserem o Legislativo: juridicamente, eles ainda são os “representantes do povo” – posição que a Constituição não concede aos chamados “movimentos sociais”). Isso, para mim (talvez ultrapassando os limites de minha herança política mista pluralista-neoelitista), é mais que suficiente para me opor à visão de mundo dos candidatos “messiânicos” – e os chamo assim, por se venderem como salvadores da pátria, como merecedores exclusivos do qualificativo democrático (tanto que chegam a ser ridículos).

A lição mais importante que todos deveriam aprender, entretanto, é um dos mais indispensáveis pilares democráticos: o direito à diversidade de opinião e liberdade de expressá-la em segurança. Estas campanhas só deixaram claro o quão equidistante está o imaginário brasileiro da cultura democrática à qual se refere o professor Larry Diamond, por exemplo. Quando desrespeitamos a opinião oposta, desqualificando-a simplesmente por se opor à nossa, com a violência que tem marcado estas eleições, desfavorecemos qualquer ambiente de liberdade e de democracia. E eu me aborreço com o quão amplamente isso se fez entre os brasileiros em 2014.

Outra coisa com a qual me aborreço é a hipocrisia dos defensores partidários. A distância entre o que disseram e fizeram há pouco mais de um ano atrás e o que dizem e fazem hoje é uma desgraça sobre sua própria memória. Se, por um lado, atacam a corrupção, por outro, todos parecem abertamente acariciá-la, se isso lhes for conveniente: um exemplo disso são as manifestações de apoio a candidatos em edifícios públicos (a Dilma em instituições federais; a Aécio em instituições estaduais em Minas Gerais) – tais manifestações, além de ilegais, são inéticas, logo, corruptas; logo, contradizem o discurso de condenação da corrupção.

Bem, talvez seja pedir demais que os grupinhos militantes pensem em ética e moralidade na política; mas, deveriam!

Assim, de certa forma, todos ganhamos e todos perdemos nessas eleições. Ganhamos a oportunidade de repensar nossa “natureza” enquanto “animais políticos”, enquanto nossos diferentes pseudo-representantes “ganham” ou “perdem” as eleições. Perdemos porque (1) eles não representam plataformas tão diferentes assim; (2) não agem de forma diferente; e (3) ajudam seus eleitores a sabotarem o espírito de cooperação democrática e livre, quando os laçam uns contra os outros em nome do poder que almejam. E isso é uma sombra maldita por sobre a democracia que deveríamos, eleitores dos dois lados, rejeitar. E os dois candidatos contribuíram malditamente com isso!

Gibson

Saturday, October 18, 2014

Clareza semântica, integridade intelectual e moralidade política: é isso que quero na campanha eleitoral


Sempre tive muita antipatia ao uso indiscriminado de certos termos para falar sobre a vida social. Usamos alguns deles de forma tão vaga que, mesmo inconscientemente, subtraímos de alguns seu sentido histórico – ignorando não apenas os conceitos tradicionais a eles atrelados, como a carga psicológica que levam.

Exemplos disso se encontram no uso feito de termos como democraciae ditadura, e seus correlatos. Se prestarem atenção às campanhas políticas, por exemplo, perceberão que quando um determinado grupo social deseja ou aprova algo, aquilo é classificado como democrático; e quando não deseja ou desaprova algo, aquilo é chamado de ditatorial. O uso indiscriminado desses termos, além de ignorar teorias filosóficas/sociais/políticas bem estabelecidas, viola a carga psicológica que esses termos ganharam, por exemplo, como consequência da experiência histórica brasileira com ditaduras e no esforço pelo estabelecimento da democracia, levado a cabo por cidadãs e cidadãos que abraçaram o processo político e rejeitaram à violência e à “selvageria”.

Hoje, quando antigos grupos “guerrilheiros” dizem ter pego em armas em “defesa da democracia”, deve-se questioná-los se sua “democracia” era a mesma defendida por aqueles outros que encontraram meios políticos para se opor ao último regime ditatorial que dominou o Brasil; se era a mesma “democracia” defendida por inúmeros jornalistas que utilizaram a escrita como força de libertação e (re)democratização. Hoje, obviamente, a verdade daqueles grupos se tornou tão dominante que ninguém vê nada de errado com sua apropriação do termo “democracia”. O problema é que quando eles são classificados de democráticos, violamos a memória daquelas inúmeras pessoas que nunca pegaram em armas, nunca sequestraram ninguém, nunca mataram, mas mesmo assim sofreram nas mãos de torturadores. Essa, para mim, é razão suficiente para fazer uma opção por definições claras!

Quando grupinhos selvagens incendeiam as ruas do país, afirmando estarem “lutando por democracia”, me pergunto se sua “democracia” era a mesma que fez com que minha tia-avó –que só escrevia para um jornal e ministrava aulas numa universidade – sofresse nas mãos de torturadores. Tenho certeza que não. Suas visões do que é democracianão poderiam ser mais distintas uma da outra. Essa, para mim, é razão suficiente para deixar claro o que quero dizer quando uso certos termos!

Quando certos grupos tentam classificar nosso governo – por mais que eu pessoalmente não tenha nenhuma simpatia por ele – como ditatorial, estão pisoteando a memória daqueles que experienciaram um regime ditatorial no Brasil, ou daqueles que encontraram um lar no Brasil após fugirem dum regime ditatorial alhures. Essa é razão mais que suficiente para escolher a clareza semântica/nocional.

Outro termo usado indiscriminadamente nesse ambiente de guerra eleitoral no qual vivemos, hoje, é fascismo, e seus correlatos. Qualquer pessoa que classifique qualquer candidato ou partido político brasileiro como fascistanão tem ideia do que esse termo significou para aqueles seres humanos que experienciaram um regime fascista. Não consigo encontrar nenhuma definição – sejam a de Payne, Linz, Eatwell, Ramos, Griffin, Nolte etc – que justifique o uso desse termo para fazer referência a nenhum dos dois atuais candidatos à Presidência da República. Essa é razão mais que suficiente para ser semanticamente claro em campanhas eleitorais ou em artigos jornalísticos.

Fazer política partidária e jornalismo, num regime democrático – que é o que o Brasil experiencia em sua história atual –, exige integridade intelectual, clareza e honestidade para com o público. Essas são características que, mesmo que pareçam utópicas, deveriam integrar qualquer “mudança” que nossa sociedade possa esperar politicamente. É uma pena que ainda não tenhamos nos dado conta disso. E é uma vergonha que os dois candidatos à Presidência – um deles aquela que já é Presidente – não demonstrem preocupação nenhuma com esse aspecto moral da política.

Gibson