Thursday, October 30, 2014

O Papa é pop?... A Igreja, as Ciências e os noticiários


Os noticiários anunciaram o que parecia bombástico. O líder da Igreja Católica Apostólica Romana, segundo as manchetes, endorsava as teorias da evolução e do Big Bang. Parecia que, dessa vez, o Papa tinha realmente se tornado “pop”!

Acompanhando todo o rebuliço causado pelas manchetes ao redor do mundo, tinha-se a impressão que a Igreja Romana, de uma hora para outra, abandonava a fé e rendia-se à ciência. Deus dava lugar – ao menos nas reações de fiéis e daqueles nem tão ligados assim à fé católica – aos experimentos de laboratório: era como se lêssemos uma nova versão de “Anjos e Demônios”, de Dan Brown.

Bem, nem tanto.

Na verdade, o discurso do Papa Francisco na sessão plenária da Pontifícia Academia de Ciências, em 27 de outubro, no Vaticano, foi um pronunciamento em linha com aquilo que a própria Igreja Romana tem ensinado sobre a Criação. E, para ser exato, está longe de ser um endorso daquilo que a maioria dos cientistas ensina sobre as duas teorias (a Evolução e o Big Bang). Nada que justifique o sentimento de escândalo sobre o qual alguns amigos católicos comentaram comigo esses últimos dias.

Vale a pena ler alguns trechos do pronunciamento do Papa, que se encontra aqui, em francês, ou aqui, em italiano, para observar aquilo que as manchetes deixaram de fora quando retrataram que o Papa agora é “pop” (tradução e ênfases são minhas):

[...] Quando lemos, no Gênesis, o relato da criação, corremos o risco de imaginar que Deus fosse um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim. […] Ele criou os seres e permitiu-lhes que se desenvolvessem de acordo com as leis internas que deu a cada um […] O início do mundo não é obra do caos, que deve a um outro a sua origem, mas deriva-se diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje é visto como a origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas a exige. A evolução na natureza não contradiz a noção da Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.[…]”

O resto do pronunciamento é ainda mais interessante. Não por trazer qualquer coisa nova, em termos de doutrina, mas por fazer uso duma linguagem que, aparentemente, não é muito comum à percepção da maioria daqueles que não compreendem a visão que o Catolicismo Romano tem de algumas posições científicas. Seu pronunciamento, por exemplo, fala sobre a liberdade humana – liberdade que tem uma ligação com aquelas “leis internas” que permitiriam aos seres seu desenvolvimento, segundo o Papa – e a maneira como a utilizamos para destruir a Criação, nos colocando no lugar do Criador.

Assim, faltou a todas aquelas notícias, e a todo o rebuliço nas redes sociais, tratar sobre o ponto principal do pronunciamento papal, a responsabilidade humana para com a Criação – ou natureza, se preferir. Tenho certeza que, com isso, qualquer um pode concordar!

Gibson

Sunday, October 26, 2014

Aquela gente, da ex-contracultura, inimiga da liberdade


Cada vez mais, me aborreço com os intelectualóides que constituem a militância esquerdista brasileira. Essa gente “ilustrada” que domina não apenas as universidades, sindicatos e redações, mas, principalmente, os cargos eletivos e o funcionalismo público brasileiro. Essa gente que se vangloria de haver supostamente defendido, e de ainda defender, a “democracia” e a “liberdade de expressão”, juntamente com os “filhinhos de papai” das famílias privilegiadas que encontraram na onda de “terrorismo da nova esquerda” – para utilizar a classificação de David Rapoport – sua raison d'être, mas que não pensa duas vezes em apagar a democracia e a liberdade de expressão se essas se tornarem um obstáculo ao seu projeto de poder.

É interessante como essa gente – mas também a direita ignorante e atrasada – retrógrada (porque se prende a uma mentalidade da Guerra Fria), com sua máscara de cool people, consegue sempre encontrar um culpado externo para os problemas nacionais, e consegue sempre responsabilizar a imprensa pelos crimes políticos que eles (isto é, “essa gente”) mesmos cometeram. Para o credo desses profetas do Iluminismo do “eles vs. nós” a imprensa representa os “golpistas”, e os políticos esquerdistas criminosos as “vítimas” dum complô. Sua reza messianizante chega a ser irritantemente ridícula.

Eles, provavelmente, vencerão as eleições hoje. Mas, ao mesmo tempo, sairão como os grandes perdedores da mesma. Perderão porque dividiram forçosamente o país. Perderão porque se tornaram o símbolo da incoerência. Perderão porque aqueles que se esforçam para ler as entrelinhas verão sua gigantesca hipocrisia. Perderão porque abandonaram sua integridade intelectual em favor do corporativismo partidário.

Essa gente perdeu sua autoridade moral – se é que algum dia realmente a teve– quando não deixou claro que seu voto no governo do dia era um voto crítico. Em vez de, mesmo votando no PT, condenar publicamente a corrupção, as irregularidades, e “alguns” dos erros administrativos do governo petista – contra o qual disparoutantas greves nos últimos dois anos, em favor de si mesma –, escolheuo corporativismo partidário. Em vez de realizar uma defesa crítica à liberdade de imprensa, escolhe não apenas apoiar projetos que restringem tal liberdade, mas criar o ambiente para que a imprensa seja atacada nas ruas e nas sedes de editoras.

Essa é a pseudo “democracia”, e a pseudo “liberdade” – que, aparentemente, não passa de eleitoral – da elite esquerdista brasileira. A “democracia” e a “liberdade” que só importa se elafor privilegiadanas urnas (e nas contas bancárias)! A “democracia” que – escondida pela máscara do “cool people”, distribuidor de renda e defensor das “minorias” – esconde-se de seu reflexo no espelho. Essa esquerda elitista já deixou de ser a “contracultura” há muito. Só não percebe isso quem não abre os olhos!

Quanto a mim, continuo a acreditar na liberdade. Melhor um país onde ideias opostas podem se contradizer livremente que um país onde animais vestidos de militantes políticos incendeiam veículos de rede de televisão, agridem jornalistas, e tentam invadir redações. Este país já viu esse tipo de cenas antes, e sabe muito bem onde isso acaba. Esses agressores – vistos como heróis pela esquerda elitista e atiçados pela ameaça deselegante da Presidente da República (com a sua “lhes daremos uma resposta nas urnas”) – simbolizam o quão distante estamos duma cultura democrática. Eles dão, na verdade, um tiro nospés da elite esquerdista, por expô-la como inimiga da liberdade!

Gibson

Thursday, October 23, 2014

Brevíssimos comentários sobre a “infantilidade” dos soldados partidários nas redes sociais


1) Começo por aqueles que declaram apoiar Aécio Neves:

  • Não é interessante como quando as “pesquisas” de certos institutos indicavam a vantagem de seu candidato, eles cantavam vitória, engrandecendo as previsões, mas quando apontam Dilma Rousseff como vencedora, os mesmos institutos são acusados de fraudulentos? Alguém racionalmente coerente consegue explicar isso?... Sinto vergonha por essas pessoas!

  • Uma das mais importantes bandeiras historicamente defendidas pelo PSDB, e defendida em vários momentos por Aécio Neves, tem sido a proteção à liberdade de expressão – a liberdade da imprensa, por exemplo. É ridículo e revoltante ver um chamado feito por alguns, nas redes sociais, a se boicotar artistas que apoiam a candidatura de Dilma Rousseff. Depois reclamam das piadas feitas pelos ativistas petistas sobre os supostos eleitores de Aécio!... Democracia e liberdade, para mim, implicam, dentre tantas outras coisas, na defesa do direito à opinião discordante, na defesa da liberdade daqueles que acreditam em coisas completamente diferentes das quais acredito dizerem o que querem. Alguém racionalmente coerente consegue explicar esse comportamento ridiculamente incoerente?... Novamente, sinto vergonha por essas pessoas!

2) Sobre os declarados eleitores de Dilma Rousseff:

  • Esses, por sua vez, acreditam ser a encarnação da sabedoria e conseguem utilizar argumentos tão rasos que sinto vergonha por eles – especialmente aqueles mais instruídos que se utilizam das mesmas artimanhas infantilizadas. Pense naquelas acusações contra o candidato do PSDB, especialmente as que o retratam como um “playboy filhinho de papai”. Se isso fosse suficiente para desqualificar alguém politicamente, eu usaria a acusação contra o passado da presidente-candidata como guerrilheira – que, claro, conseguiram transformar em imagem duma “lutadora pela democracia”... e eu me recuso a entrar nesse tipo de discussão com os crentes dogmáticos nesses “libertadores” nacionais (é mais fácil discutir teologia com cristãos fundamentalistas do Kentucky!). Essa gente supostamente instruída ignora, em suas argumentações nas redes sociais, os processos de construção de mitos e deixam de analisar seus próprios “discursos”. É algo triste de ver!

  • É inacreditável como pessoas supostamente tão ilustradas prosseguem com seus argumentos ignorantes sobre o “fim de direitos”!... Pelo amor da racionalidade, estudem um pouco como funcionam as leis deste país! Direitos constitucionais e leis promulgadas pelo Congresso não podem ser anuladas por um Presidente da República – a não ser que estejamos numa ditadura novamente, e ninguém pode acusar o PSDB ou seu candidato de estarem tentando estabelecer uma, seja ela dos capitalistas ou do proletariado (diferentemente dos antigos “libertadores”, que se tornaram o símbolo do establishment político de hoje)!
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Enfim, a estupidez argumentativa que esses ativistas – de todas as facções, cores, partidos, crenças, status socioeconômicos e formação educacional – têm demonstrado é vergonhosa. Pena que eles não percebem isso! [Isso para não citar a vergonhosa verborragia do ex-presidente Lula, com suas inadequadas e irresponsáveis comparações!]

Gibson

Um minuto para o sarcasmo...

A receita para "continuar mudando", segundo alguns?... Não questione! Só siga a velha e apropriadíssima receita ministerial: "Relaxa e goza"!
 
 
 

Tuesday, October 21, 2014

Eleições e democracia: todos perdemos alguma coisa!


Desde o ano passado tenho dito a amigos que não acredito que a Presidente Dilma Rousseff perca as eleições. Ainda acredito nisso piamente, mesmo sendo eleitor da ridícula “oposição” (como já disse aqui antes, eles não merecem essa alcunha).

Na verdade, fui surpreendido por um segundo turno – o questionamento dos eleitores e eleitoras brasileiros me surpreendeu de forma positiva. Os defensores mais combativos do governo – isto é, aqueles que se perdem num oceano de incoerências discursivas e fanatismo partidário (da mesma forma como os mais combativos defensores do candidato Aécio Neves ou de qualquer outro candidato político) – se ofendem quando digo que foi extremamente positivo que Dilma perdesse no primeiro turno (sim, porque ela, de fato, perdeu, independentemente de conquistar o primeiro lugar; não se trata duma questão aritmética, mas, sim, simbólica). O invencível partido messiânico deparou-se com a dúvida do populacho crente, e viu-se obrigado a disputar o assento republicano, aos “tapas”, com um "pregador" menos potente. E isso poderia ser extremamente positivo para os messiânicos (PT e os “companheiros”), para os seguidores do novo pregador (PSDB e os “amarelos”) e para seus respectivos eleitores – claro, isso se todos eles fizerem seu dever de casa.

Como ainda penso que a Presidente se reelegerá – desejo que não, mas vivo com meus pés no chão, e não na Lua! –, ela deveria aprender com a lição que recebeu dos eleitores. Ninguém é invencível, independentemente de quão popular tenha se tornado. Na verdade, ninguém é unanimemente popular – que diga minha carreira pedagógica. Não custaria muito ela repensar um pouco suas estratégias políticas em seu provável segundo mandato.

Quanto à “oposição” – ainda acho que deveríamos pensar numa alcunha melhor para eles, já que só conseguiram se opor a seus próprios eleitores até agora –, já está mais do que na hora de se decidirem ao que se opõem, afinal de contas. O consenso político social liberal brasileiro torna meio “sem pé nem cabeça” a guerra entre PT e PSDB. Na verdade, ambos os partidos são praticamente a mesma coisa, quando se leva em consideração sua agenda mais ampla. Talvez seja mais que hora de o PSDB se refundar – ou o contrário, isto é, o PT se re-refundar, tornando-se mais claramente distinto do PSDB. As diferenças entre os dois, especialmente no campo econômico, é crendice que serve apenas para ser gritado por militantes cegos em tempos de campanhas eleitorais – só não vê isso quem não quer!

Não, não sou o perfeito idiota que acredita que o PSDB, e seu candidato, represente tudo o que há de limpo e virtuoso na política brasileira – o chamado “quarto poder” da república mostra uma realidade bem diferente disso (mais um ponto em comum com os “messiânicos”... quero dizer, com o PT)!

Mas há algumas poucas diferenças entre os dois grupos. E, na verdade, são justamente essas diferenças que me fazem manter minha adesão ao PSDB e me opor ao PT e à sua candidata. A diferença mais importante está nas compreensões distintas entre os dois partidos a respeito das liberdades democráticas – coisa que desde o primeiro mandato de Lula tem sofrido ameaças: refiro-me à liberdade da imprensa, por exemplo, algo que mantém uma posição dogmática em minha visão de mundo. Ademais, há ainda o mais recente movimento semi-autoritário da Presidente em tomar decisões que apenas o Legislativo poderia em detrimento do próprio Legislativo (classifiquem como quiserem o Legislativo: juridicamente, eles ainda são os “representantes do povo” – posição que a Constituição não concede aos chamados “movimentos sociais”). Isso, para mim (talvez ultrapassando os limites de minha herança política mista pluralista-neoelitista), é mais que suficiente para me opor à visão de mundo dos candidatos “messiânicos” – e os chamo assim, por se venderem como salvadores da pátria, como merecedores exclusivos do qualificativo democrático (tanto que chegam a ser ridículos).

A lição mais importante que todos deveriam aprender, entretanto, é um dos mais indispensáveis pilares democráticos: o direito à diversidade de opinião e liberdade de expressá-la em segurança. Estas campanhas só deixaram claro o quão equidistante está o imaginário brasileiro da cultura democrática à qual se refere o professor Larry Diamond, por exemplo. Quando desrespeitamos a opinião oposta, desqualificando-a simplesmente por se opor à nossa, com a violência que tem marcado estas eleições, desfavorecemos qualquer ambiente de liberdade e de democracia. E eu me aborreço com o quão amplamente isso se fez entre os brasileiros em 2014.

Outra coisa com a qual me aborreço é a hipocrisia dos defensores partidários. A distância entre o que disseram e fizeram há pouco mais de um ano atrás e o que dizem e fazem hoje é uma desgraça sobre sua própria memória. Se, por um lado, atacam a corrupção, por outro, todos parecem abertamente acariciá-la, se isso lhes for conveniente: um exemplo disso são as manifestações de apoio a candidatos em edifícios públicos (a Dilma em instituições federais; a Aécio em instituições estaduais em Minas Gerais) – tais manifestações, além de ilegais, são inéticas, logo, corruptas; logo, contradizem o discurso de condenação da corrupção.

Bem, talvez seja pedir demais que os grupinhos militantes pensem em ética e moralidade na política; mas, deveriam!

Assim, de certa forma, todos ganhamos e todos perdemos nessas eleições. Ganhamos a oportunidade de repensar nossa “natureza” enquanto “animais políticos”, enquanto nossos diferentes pseudo-representantes “ganham” ou “perdem” as eleições. Perdemos porque (1) eles não representam plataformas tão diferentes assim; (2) não agem de forma diferente; e (3) ajudam seus eleitores a sabotarem o espírito de cooperação democrática e livre, quando os laçam uns contra os outros em nome do poder que almejam. E isso é uma sombra maldita por sobre a democracia que deveríamos, eleitores dos dois lados, rejeitar. E os dois candidatos contribuíram malditamente com isso!

Gibson

Saturday, October 18, 2014

Clareza semântica, integridade intelectual e moralidade política: é isso que quero na campanha eleitoral


Sempre tive muita antipatia ao uso indiscriminado de certos termos para falar sobre a vida social. Usamos alguns deles de forma tão vaga que, mesmo inconscientemente, subtraímos de alguns seu sentido histórico – ignorando não apenas os conceitos tradicionais a eles atrelados, como a carga psicológica que levam.

Exemplos disso se encontram no uso feito de termos como democraciae ditadura, e seus correlatos. Se prestarem atenção às campanhas políticas, por exemplo, perceberão que quando um determinado grupo social deseja ou aprova algo, aquilo é classificado como democrático; e quando não deseja ou desaprova algo, aquilo é chamado de ditatorial. O uso indiscriminado desses termos, além de ignorar teorias filosóficas/sociais/políticas bem estabelecidas, viola a carga psicológica que esses termos ganharam, por exemplo, como consequência da experiência histórica brasileira com ditaduras e no esforço pelo estabelecimento da democracia, levado a cabo por cidadãs e cidadãos que abraçaram o processo político e rejeitaram à violência e à “selvageria”.

Hoje, quando antigos grupos “guerrilheiros” dizem ter pego em armas em “defesa da democracia”, deve-se questioná-los se sua “democracia” era a mesma defendida por aqueles outros que encontraram meios políticos para se opor ao último regime ditatorial que dominou o Brasil; se era a mesma “democracia” defendida por inúmeros jornalistas que utilizaram a escrita como força de libertação e (re)democratização. Hoje, obviamente, a verdade daqueles grupos se tornou tão dominante que ninguém vê nada de errado com sua apropriação do termo “democracia”. O problema é que quando eles são classificados de democráticos, violamos a memória daquelas inúmeras pessoas que nunca pegaram em armas, nunca sequestraram ninguém, nunca mataram, mas mesmo assim sofreram nas mãos de torturadores. Essa, para mim, é razão suficiente para fazer uma opção por definições claras!

Quando grupinhos selvagens incendeiam as ruas do país, afirmando estarem “lutando por democracia”, me pergunto se sua “democracia” era a mesma que fez com que minha tia-avó –que só escrevia para um jornal e ministrava aulas numa universidade – sofresse nas mãos de torturadores. Tenho certeza que não. Suas visões do que é democracianão poderiam ser mais distintas uma da outra. Essa, para mim, é razão suficiente para deixar claro o que quero dizer quando uso certos termos!

Quando certos grupos tentam classificar nosso governo – por mais que eu pessoalmente não tenha nenhuma simpatia por ele – como ditatorial, estão pisoteando a memória daqueles que experienciaram um regime ditatorial no Brasil, ou daqueles que encontraram um lar no Brasil após fugirem dum regime ditatorial alhures. Essa é razão mais que suficiente para escolher a clareza semântica/nocional.

Outro termo usado indiscriminadamente nesse ambiente de guerra eleitoral no qual vivemos, hoje, é fascismo, e seus correlatos. Qualquer pessoa que classifique qualquer candidato ou partido político brasileiro como fascistanão tem ideia do que esse termo significou para aqueles seres humanos que experienciaram um regime fascista. Não consigo encontrar nenhuma definição – sejam a de Payne, Linz, Eatwell, Ramos, Griffin, Nolte etc – que justifique o uso desse termo para fazer referência a nenhum dos dois atuais candidatos à Presidência da República. Essa é razão mais que suficiente para ser semanticamente claro em campanhas eleitorais ou em artigos jornalísticos.

Fazer política partidária e jornalismo, num regime democrático – que é o que o Brasil experiencia em sua história atual –, exige integridade intelectual, clareza e honestidade para com o público. Essas são características que, mesmo que pareçam utópicas, deveriam integrar qualquer “mudança” que nossa sociedade possa esperar politicamente. É uma pena que ainda não tenhamos nos dado conta disso. E é uma vergonha que os dois candidatos à Presidência – um deles aquela que já é Presidente – não demonstrem preocupação nenhuma com esse aspecto moral da política.

Gibson

Wednesday, October 15, 2014

O debate na Band e o medo como instrumentalização na campanha política

É prática comum – e não apenas no Brasil – a tentativa de manipulação dos eleitores por meio do discurso do medo. De um lado, os governistas de todos os níveis do Executivo, para manterem-se no poder, fazem uso de assombrosas previsões ameaçadoras na esperança de impedir seus opositores de vencerem as eleições; de outro lado, as oposições recorrem à mesma tática retórica a fim de conseguir estremecer a confiança dos eleitores nas promessas daqueles que já estão no poder. Ambos os lados fazem um desserviço ao eleitor.

Um pouco dessa atitude, na verdade, está prontamente visível nas campanhas “não oficiais” desenvolvidas pelos ativistas das chamadas redes sociais dos mais variados posicionamentos políticos (das esquerdas, das direitas, dos centros, e dos sem coordenadas espaciais): para alguns desses, “a direita” quer subtrair direitos sociais alcançados pelos cidadãos; para outros desses, “a esquerda” quer implantar uma ditadura no Brasil.

Obviamente, não preciso dizer que nenhum desses grupos apresenta “provas” ou “evidências concretas” que substanciem suas acusações. Sua campanha, assim, baseia-se no medo que, por sua vez, assenta-se sobre a suposta desinformação do eleitor.

Sim, é verdade que – a depender de sua compreensão política individual – há sempre uma expectativa justificada de que aquilo que apreciamos seja mudado para pior por aqueles que defendem outras posições políticas. Mas qualquer eleitor digno do nome deve desenvolver a capacidade de duvidar das obviedades, de criticar suas próprias certezas e, especialmente, das afirmativas de candidatos a posições eletivas. Eu, como eleitor, duvido de todos eles; voto em candidatos, mas faço questão de acompanhar o que dizem e fazem. Faço questão de ser, enfim, o pior pesadelo que podem ter – já que criticarei absolutamente todos que julgue estarem errados, especialmente aqueles nos quais votei. E os dois candidatos à Presidência da República que disputam o segundo turno das eleições têm, até agora, desrespeitado a seus eleitores quando instrumentalizam o medo em suas campanhas e quando utilizam o horário eleitoral e os debates para trocarem agressões, em vez de discutirem propostas e ideias.

Os que se instrumentalizam com o medo atentam contra um dos mais importantes pilares da democracia representativa: a discussão de ideias e propostas, e o direito de o eleitor decidir-se com base nelas. E porque os candidatos não acreditam na capacidade intelectual do eleitor de lidar com proposições políticas, preferindo tornar os palcos de debates em cenas de pancadaria do “Big Brother” ou de “A Fazenda”, fazem uso do medo como linguagem instrumental. Se isso em si é uma afronta imperdoável à dignidade do eleitor, quando quem o faz já é Presidente da República isso é ainda pior – torna-se uma agressão direta à própria cidadania, e um desrespeito à posição institucional que ocupa!

Se você que lê minhas palavras for um “boxeador” partidário, talvez tenha se irritado. Bem, isso é problema seu, independentemente de qual seja sua preferência eleitoral. Eu não luto por candidatos políticos. Na verdade, não luto, trabalho. Trabalho por mim mesmo, por minhas convicções, por minha confiança nas instituições de Direito, pela democracia. Quem tem de trabalhar por mim são eles – aqueles que são eleitos. E quando uma Presidente e um candidato desrespeitam-me como um cidadão e como eleitor, torna-se muito difícil confiar em suas promessas.

Gibson

Tuesday, October 14, 2014

De onde saiu o Bolsa Família mesmo?

A resposta está no artigo 1º da Lei 10.836/2004.

 
"Art. 1o Fica criado, no âmbito da Presidência da República, o Programa Bolsa Família, destinado às ações de transferência de renda com condicionalidades.

Parágrafo único. O Programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação - Bolsa Escola, instituído pela Lei nº 10.219, de 11 de abril de 2001, do Programa Nacional de Acesso à Alimentação - PNAA, criado pela Lei n o 10.689, de 13 de junho de 2003, do Programa Nacional de Renda Mínima vinculada à Saúde - Bolsa Alimentação, instituído pela Medida Provisória n o 2.206-1, de 6 de setembro de 2001, do Programa Auxílio-Gás, instituído pelo Decreto nº 4.102, de 24 de janeiro de 2002, e do Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto nº 3.877, de 24 de julho de 2001."